Cinema nacional: 'Arábia' fala sobre trabalhador brasileiro

Vencedor do Festival de Brasília de 2017, 'Arábia' narra a história das lutas de um homem comum para encontrar trabalho e paz. Dirigido por Affonso Uchôa e João Dumans, filme é exemplar importante do cinema nacional

Cena do filme "Arábia", de Affonso Uchôa e João DumansCena do filme "Arábia", de Affonso Uchôa e João Dumans - Foto: Divulgação

O potencial do cinema como arte que se comunica com uma grande quantidade de espectadores, uma forma de expressão cultural que ao contar a história de um homem sinaliza metaforicamente as condições de toda uma comunidade, surge com força em "Arábia", filme importante no cinema nacional recente. 

Longa-metragem mineiro dirigido por Affonso Uchôa e João Dumans, vencedor do Festival de Brasília de 2017, o filme entra em cartaz no Cinema da Fundação (Derby e Casa Forte). 

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É interessante a estrutura narrativa proposta pelo roteiro. A trama começa lenta, seguindo as ações diárias do adolescente André (Murilo Caliari), que mora com o irmão mais novo. Certo dia, sua tia pede para ele ir à casa de um operário que sofreu um acidente, para pegar roupas e levá-las para o hospital. 

Na residência da vítima, André encontra seu diário e inicia aí seu processo de fascinação pela história do homem. É quando de fato começa "Arábia": a trajetória de Cristiano (Aristides de Sousa) é narrada através de seus próprios depoimentos. 

A escrita desse texto, um pedido de seu chefe na fábrica onde trabalha, permite Cristiano refletir, nos seus termos, sobre sua vida, sobre o que constitui sua existência. 

Cristiano detalha sua trajetória profissional e afetiva, os conhecimentos adquiridos pela experiência e pelas trocas com outros trabalhadores. Fala também sobre seu único amor, Ana (Renata Cabral). É de uma beleza reveladora descobrir a jornada desse homem: na vida de Cristiano cabem também as vidas de uma grande quantidade de trabalhadores anônimos brasileiros.

Essa é a beleza fundamental de "Arábia": a maneira como o roteiro se abre para experiências diversas de pessoas que trabalham para viver, viajando de cidade em cidade em busca de sustento. Através desse personagem é possível sentir o drama coletivo existencial de toda classe operária. 

Se o filme chega à excelência através desse discurso fascinante, perto do fim atinge o ápice: um depoimento incrível de Cristiano, um testemunho que através da alegoria sugere diferentes entendimentos, um teor ao mesmo tempo político e afetivo que comenta a essência do trabalhador no Brasil hoje. 

Filmografia


Affonso Uchôa recorre a elementos de seu trabalho cinematográfico anterior, "A vizinhança do tigre" (2016): uma certa naturalidade documental aplicada às cenas; atores que interpretam de forma livre e espontânea, tendendo a um desempenho associado ao realismo do documentário. São bons exemplares do cinema nacional, compostos por ações miúdas e cenas que pela longa duração parecem sugerir uma realidade pulsante e afetiva.

Cotação: ótimo

 

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