Literatura

Circuito Digital da Poesia busca levar poesia de forma interativa a usuários

Projeto desenvolvido por recifenses tem como objetivo manter a conexão entre cultura e o ambiente virtual

Carlos Burgos, Vladimir Barros e Erick SimõesCarlos Burgos, Vladimir Barros e Erick Simões - Foto: Divulgação

“Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora…/… onde se ia pescar escondido/ Capiberibe/ — Capiberibe”. Este trecho de “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, mostra que o vínculo afetivo entre a capital pernambucana e seus poetas é secular. Um desses pilares é o Circuito das Poesias, em que Bandeira e outros 11 poetas são homenageados com esculturas espalhadas na área central da cidade. Vítima de episódios recentes de vandalismo, agora o equipamento cultural ao ar livre faz parte de um projeto digital, o qual foi desenvolvido com suporte do Mestrado Profissional em Design da CESAR School.

Sob o nome de “Circuito Digital da Poesia”, o projeto foi idealizado pelo designer e pesquisador Vladimir Barros, de 35 anos. Em conjunto com o programador Erick Simões e o artista 3D Carlos Burgos, a ideia do circuito é levar ao público uma imersão virtual para os poetas presentes no circuito. Além disso, ele é uma forma da manter a memória dos equipamentos frequentemente ativa, tendo em visto os frequentes crimes contra o patrimônio que as estátuas estão sofrendo. Na semana passada, a escultura de Ariano Suassuna sofreu vandalismo e foi depredada na Rua da Aurora, em frente ao teatro que leva o nome do escritor paraibano.

Antes mesmo do episódio, o projeto nasceu da relação de Vladimir Barros com a cultura local. “Eu sempre vi como uma área super carente, principalmente nesse quesito tecnológico. A ideia surgiu como defesa do meu mestrado em design na Cesar School. A minha dissertação é sobre como a realidade aumentada para potencializar os espaços públicos que não são bem aproveitadas, principalmente nesses espaços e monumentos voltados para figuras importantes da cultura popular pernambucana”, conta o pesquisador. 

“Eu vi o Circuito da Poesia como o ideal. Ele é um local onde muitas pessoas passam ou passavam diariamente e era tido como um local despercebido. Quantas pessoas não conhecem a poesia de Ascenso Ferreira? Que inclusive serviu de base até para música de Alceu Valença. Ele serviu de base, inclusive, como protótipo para o projeto”, explica Vladimir.

Como funciona

O artefato digital funciona através de um dispositivo móvel. Nele, os usuários conhecem as estátuas e suas poesias por meio de um celular, por exemplo. No entanto, o projeto ainda não está no ar, à espera de apoio para rodar a público. “Por conta da pandemia, ele não pôde funcionar do que a gente queria. O ideal é que funcionasse no próprio local. A gente queria que a própria estátua contasse a vida dela, meio que um Harry Potter da vida real. Com a pandemia, pensamos em aplicar os testes de outra forma. Eu tive que pensar em como pensar esse processo em um estudo em casa”, ressalta.

Para os interessados em apoiar o projeto, Vladimir Barros possui um perfil no Instagram (@vladimirbsouza). Ele discutirá em uma live, promovida pela CESAR School, junto a outros especialistas, sobre o projeto nesta quinta-feira (1). 

Circuito da Poesia

Segundo o site da Prefeitura do Recife, o circuito é composto por 12 poetas:

Antônio Maria (1921/1964)
Poeta, compositor e um dos maiores cronistas brasileiros de sua época. É dele a famosa frase: “Se você me encontrar dormindo, deixe; morto, acorde”. A escultura do artista está na Rua do Bom Jesus, chamada no tempo de ocupação flamenga (1630/1654) “Rua dos Judeus” por abrigar estabelecimentos comerciais judaicos e a Sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira das Américas, hoje Centro Cultural Judaico de Pernambuco.

Ascenso Ferreira (1895/1965)
Poeta da primeira geração do Modernismo e autor de obras como “Catimbó”, “Cana Caiana” e “Xenhenhém”, tem sua produção estudada por grandes nomes da crítica e literatura brasileiras. No Cais da Alfândega, como a contemplar o rio Capibaribe, está a escultura do poeta. Ainda na área, o Paço Alfândega, centro de compras, cultura, lazer e gastronomia que funciona em prédio histórico datado de 1732.

Capiba (1904/1997)
Foi um dos maiores compositores que Pernambuco já conheceu. Autor de memoráveis frevos que animam o Carnaval do Recife, está imortalizado às margens do rio Capibaribe, na Rua do Sol, cenário da reta final do monumental desfile carnavalesco do Galo da Madrugada.

Carlos Pena Filho (1928/1960)
Pela delicadeza da sua obra, Gilberto Freyre o comparou a um pintor de palavras. Poeta, jornalista e advogado, faleceu aos 32 anos. A escultura do poeta está na Praça da Independência, espaço comercial do Recife desde o tempo dos holandeses em Pernambuco (1630/1654). Diante da Praça funcionava a sede do mais antigo jornal em circulação na América Latina, o “Diario de Pernambuco”, do qual Carlos Pena Filho foi colaborador.

Chico Science (1966/1997)
Compositor e criador do manguebeat, movimento musical que nasceu no Recife na década de 90 e que mistura ritmos regionais com rock, hip hop, samba-reggae, funk e rap. Sua escultura ocupa um espaço na Rua da Moeda, no Bairro do Recife, polo original dos eventos relacionados ao manguebeat.

Clarice Lispector (1920/1977)
Escritora ucraniana que passou parte de sua infância no Recife, onde aprendeu a amar os livros e ensaiar as suas primeiras incursões pela vida literária. Sua escultura foi colocada na Praça Maciel Pinheiro, cujo entorno revela interessantes atrativos como a Rua da Imperatriz, com seu comércio popular; a Matriz da Boa Vista da Irmandade do Santíssimo Sacramento; o Teatro Parque; e o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano.

João Cabral de Melo Neto (1920/1999)
Um dos maiores poetas brasileiros e autor da antológica obra “Morte e Vida Severina”, é homenageado na Rua da Aurora. João Cabral de Melo Neto foi diplomata, membro da Academia Brasileira de Letras e, por sua atividade literária, recebeu diversos prêmios, a exemplo do Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro; Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; e Prêmio da União Brasileira de Escritores, pelo livro “Crime na Calle Relator” (1988).

Joaquim Cardozo (1897/1978)
Poeta e engenheiro civil, trabalhou com Oscar Niemeyer em importantes construções de Brasília. Sua obra poética, filiada à segunda geração do Modernismo, tem como temas constantes o Recife e a região Nordeste. É considerado um dos maiores poetas do século XX. A Ponte Maurício de Nassau, situada no local onde existiu a primeira ponte do Brasil, abriga a escultura do Poeta.

Luiz Gonzaga (1912/1989)
Conhecido como “O Rei do Baião”, ganhou fama com músicas que retratam o modo de ser e de viver do nordestino. Sua escultura está situada na Praça Visconde de Mauá, diante da antiga Estação Central do Recife (1888) e da Casa da Cultura de Pernambuco, centro de comercialização artesanal instalado em prédio onde funcionou a antiga Casa de Detenção do Recife.

Manuel Bandeira (1886/1968)
Precursor do movimento Modernista, é homenageado na Rua da Aurora, considerada por Gilberto Freyre “a mais recifense de todas as ruas”. Nesta via, especiais encantos: antigos sobrados e casarões do século XIX, o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – MAMAM, os prédios da Assembleia Legislativa e do tradicional Ginásio Pernambucano, a monumental figura do caranguejo, retratada através da escultura coletiva “Carne da Minha Perna”, uma homenagem ao movimento manguebeat, e o Cais da Aurora.
Em suas obras, Manuel Bandeira abordava temáticas cotidianas e a capital pernambucana foi uma delas, como em Evocação do Recife. Além de poeta, ele foi jornalista, cronista, ensaísta, tradutor, professor de Literatura e membro da Academia Brasileira de Letras.

Mauro Mota (1911/1984)
Jornalista, poeta e ensaísta, autor de obras como “Elegias”, “Imagens do Nordeste” e “Canto ao Meio”. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. A Praça do Sebo, tradicional local de venda de livros raros e usados, recebeu sua escultura.

Solano Trindade (1908/1974)
Poeta, pintor e folclorista foi, segundo Carlos Drummond, o maior poeta negro do Brasil. Também cineasta e teatrólogo, fundou o Teatro Experimental do Negro e o Teatro Popular do Brasil. Sua escultura está no Pátio de São Pedro, um dos mais importantes polos de animação do Recife. Na área, são destaques as edificações do século XVIII, a Concatedral de São Pedro dos Clérigos (1728/1782) e os múltiplos espaços culturais.

 

 

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