Clássico do cinema: 50 anos de '2001 uma odisseia no espaço'

Filme dirigido por Stanley Kubrick estreou em abril de 1968, dividindo as opiniões do público e de críticos. Hoje, se tornou um clássico do cinema

Cena do filme '2001 - uma odisseia no espaço' (1968), de Stanley Kubrick Cena do filme '2001 - uma odisseia no espaço' (1968), de Stanley Kubrick  - Foto: Divulgação

Quando "2001 - uma odisseia no espaço" estreou nos cinemas, em abril de 1968, o filme, dirigido por Stanley Kubrick (1928-1999), recebeu elogios calorosos e também ataques fulminantes. "Um filme monumentalmente pouco imaginativo", escreveu Pauline Kael; "Uma grande decepção", disse Stanley Kauffmann; "Incrivelmente entediante", comentou Renata Adler; "Um fracasso lamentável", opinou John Simon - críticos de cinema influentes nos anos 1960.

O tempo e seus efeitos: em abril, o longa-metragem completa 50 anos de lançamento, confirmando seu status de clássico do cinema, uma obra de arte incontornável, um filme fundamental na história. Entre outros méritos, "2001" ocupa a sexta posição na lista dos 50 melhores filmes de todos os tempos - uma votação feita em 2012 pela prestigiada revista britânica Sight & Sound, que juntou 846 profissionais, entre críticos, programadores, acadêmicos e distribuidores.

Leia também:
Nova safra do terror nacional mostra sua força
Gênero documentário se firma no cinema nacional
Cineastas ficam entre a criatividade e a realidade
Marco das séries de TV, 'Breaking Bad' completa dez anos


"Vi o filme em 1969, no Cine Capitólio, de Campina Grande, mas a primeira vez que ouvi falar nele foi no ano anterior, na casa de amigos cineclubistas", lembra Bráulio Tavares, escritor e pesquisador da literatura fantástica. "Alguém disse: 'Estreou nos EUA um filme muito louco. O filme começa com um macaco pré-histórico dando socos num esqueleto de um animal, aí um osso salta no ar e se transforma numa espaçonave.' Pensei na hora: 'Que negócio surrealista, esse filme deve ser bom demais!'", recorda.

A cena se refere a um dos momentos antológicos da história do cinema, uma sequência que fascina por seu potencial filosófico, estético e conceitual - um exemplo de uma montagem que privilegia a elipse, uma transição carregada de sentidos e emoções. Um macaco joga um osso para cima, num momento de força e êxtase, e esse instante pré-histórico se transforma em futuro e distopia: enquanto gira no ar, a montagem troca a imagem do osso por uma espaçonave vagando pelo espaço, uma mudança carregada de sentidos e significações.

"A forma como Kubrick constrói essa narrativa tem sofisticação", opina Alexandre Figueirôa, pesquisador de cinema e professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). "Ele é um cineasta que é muito preciso no encadeamento das ideias. Em '2001', as elipses estão o tempo inteiro presentes. Essas passagens de tempo são misteriosas e vão criando no espectador uma inquietação, um questionamento. O espectador entra no filme a partir dessas chaves que Kubrick vai jogando", ressalta.

   Alegoria do presente

"2001" recorre a certas características associadas à ficção científica. "Gênero no cinema é um conjunto de termos contratuais. Por isso esperamos que haja xerife num western ou sexo num pornô", opina Paulo Cunha, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). "Na ficção científica esperamos um conjunto de termos que passam pela ideia de futuro: tecnologias desconhecidas, modos de vida redimensionados, seres estranhos que nos invadem. A ficção científica é o lugar dos nossos medos e das nossas esperanças daquilo que ainda virá", explica.

Kubrick recorre a códigos tradicionais e reconhecíveis do gênero, mas o uso dessas regras é criativo e ousado, misterioso e fascinante: a ficção científica como meio para apresentar perspectivas sobre existência e humanidade. "Kubrick toma esses termos e os subverte, na medida em que '2001' é muito mais uma alegoria do presente do que um ensaio sobre o futuro", opina Paulo. "Por isso o preâmbulo da pré-história é tão importante. '2001' é sobre o presente e seu contexto de fascínio tecnológico, de violência tribal, de intolerância absoluta", detalha.

Ao transcender os limites do gênero, indicando o que há de potencialmente revolucionário e alegórico na ficção científica, Kubrick sugere reflexões mais amplas e difusas. "A ficção científica pode falar de um futuro próximo ou distante. Naquela época, os filmes de ficção científica eram mais voltados para a ação. Mas '2001' não é um filme de ação. Tem silêncio, inquietação, uma possível leitura metafísica", sugere Alexandre.

"'2001' Vai além da revolução tecnológica e parte para questionamentos sobre como esses avanços afetam o ser humano. Pensando em filmes recentes ou na série 'Black mirror', '2001' antecipa algumas questões. É um filme que discute o mundo virtual, a inteligência artificial. É um desdobramento que começa a assustar as pessoas. O que há 50 anos era especulação, hoje começa a ser possível", sugere Alexandre. "'2001' é o limite da relação homem-máquina, do que hoje qualquer criança conhece como Inteligência Artificial. O limite do espaço-tempo: até onde o ser humano poderá ir? Até onde deveria ir?", reforça Paulo.

O cinema segundo Kubrick

Na cinematografia de Kubrick, "2001" é mais um filme amplamente elogiado, de relevância histórica. O diretor assinou 13 longas - sendo o primeiro, "Medo e desejo" (1953), rejeitado por ele, que disse ser um filme "amador", comparando a um “desenho de criança colado na geladeira”. É uma quantidade relativamente pequena quando pensamos na longa trajetória do diretor, que trabalhou no cinema por quase 50 anos, mas quase todos são hoje vistos como obras essenciais, como "Dr. Fantástico" (1964), "Laranja Mecânica" (1971) e "O Iluminado" (1980). 

"Kubrick é um caso especialíssimo na história do cinema", diz Paulo. "Cada filme dele é diferente (no tema, na técnica, na elaboração formal), mas o conjunto é de uma harmonia total. Há um fundo comum, que é a condição humana levada ao limite extremo: isso está no forasteiro de 'Lolita', em Barry Lyndon, no médico burguês em 'De olhos bem fechados'", detalha. "Em '2001' há, é claro, as obsessões de Kubrick: o ponto de fuga central na composição do quadro, o realismo estranho da interpretação dos atores, a excelência da trilha sonora", lista.

Livro/filme
O filme de Kubrick é baseado no livro homônimo do autor Arthur C. Clarke. A escrita ocorreu durante as filmagens e as duas obras se baseiam no texto "The Sentinel" (1948), do escritor. "O livro de Clarke é uma obra rara na ficção científica, no sentido de que foi escrito paralelamente à criação do filme. Não é um livro anterior ao filme e que o filme adaptou, nem é uma novelização, que é escrita depois do filme estar pronto. Os dois, filme e livro, constituem na verdade um conjunto criativo, uma única obra com dois autores", explica Bráulio.

Foi com este projeto que foi adaptado e se tornou um clássico do cinema que a carreira do escritor evoluiu e ganhou mais alcance e notoriedade. "Com este livro/filme, Clarke tornou-se um dos escritores mais influentes da ficção científica, recebendo prêmios e honrarias tanto da comunidade do gênero literário quanto da comunidade científica, aparecendo em programas de TV de grande audiência, etc", explica Bráulio. "Somente H. G. Wells, falecido em 1946, teve uma notoriedade semelhante", ressalta.

"O filme teima em não envelhecer"
O filme superou a recepção inicial e se tornou um clássico do cinema, um filme cuja importância transcendeu a época de lançamento e se firmou na história da arte. "O filme teima em não envelhecer", diz Paulo. "Contrariamente aos velhos episódios de Flash Gordon, hoje engraçados porque as naves espaciais tinham maçanetas nas portas, '2001' continua atualíssimo em todos os níveis: cenografia, roteiro, interpretação", ressalta.

Além do apuro técnico, da conjugação fascinante entre direção de arte, fotografia e figurino, o clássico do cinema segue relevante pela proposta conceitual, pela leitura filosófica e metafísica que propõe. "Kubrick nos legou um problema interpretativo sem fim: o monólito negro que integra os diversos tempos do filme. Há dezenas, talvez centenas de tentativas de definir o monólito. Todas são aceitáveis, algumas são ótimas, nenhuma é suficiente. A cada visão, o filme abre uma nova possibilidade de leitura", lembra Paulo.

Esses 50 anos ressaltam a maneira como o tempo, as diferentes leituras e os debates entre espectadores afetam a trajetória de uma obra de arte, além de ampliar as discussões em torno de um clássico do cinema. "Ninguém mais nega a importância do filme, mesmo quem não gosta dele", diz Bráulio. "Ele se tornou o que a crítica gosta de chamar 'uma obra incontornável', que tem de ser obrigatoriamente conhecida para se ter um entendimento sério do gênero. Possibilita inúmeras leituras míticas, cibernéticas, metafísicas", conclui. 

 

Veja também

Roteiristas da série de ficção sobre Marielle Franco decidem deixar o projeto
Série

Roteiristas da série de ficção sobre Marielle Franco decidem deixar o projeto

Polícia faz busca por músicas inéditas de Renato Russo no Rio
Música

Polícia faz busca por músicas inéditas de Renato Russo no Rio