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Clássicos somem de plataformas em meio à guerra entre streamings

Os resultados levam a questionar para onde estão indo os filmes clássicos, de diretores cultuados, mas aparentemente esquecidos pelas novas tecnologias

Clássicos somem dos canais de streamingClássicos somem dos canais de streaming - Foto: Pixabay

Na atual era do streaming, qualquer um disposto a pagar para assinar alguma plataforma de filmes sob demanda tem à sua disposição, a qualquer hora do dia, uma imensa galeria de produções de diversos gêneros e países.

Mas, com o superaquecimento desse mercado, serviços como Netflix e Amazon notaram que, para manter a dianteira na disputa, seria necessário investir massivamente em conteúdo original e arrematar os direitos de distribuição de sucessos recém-saídos das salas de cinema.

Com isso, os catálogos dessas plataformas passaram a ostentar títulos inéditos com amplo apelo popular e também vários blockbusters, pondo em segundo plano toda uma gama de filmes antigos, com público mais restrito.

De acordo com levantamento feito pelo DeltaFolha entre julho e agosto, Netflix, Amazon, Telecine Play, Globoplay e HBO Go tinham, todas, mais de 50% de seu acervo cinematográfico ocupado por produções dos últimos dez anos.

A pesquisa levantou os catálogos completos desses cinco serviços no Brasil, excluiu séries e outros programas de TV e concluiu que é raro ver por lá longas do século passado -e, como se não bastasse a escassez, esses títulos costumam ficar bem escondidos.

Vale ressaltar que os acervos analisados mudam diariamente, o que pode causar  variações nos resultados.

A plataforma menos preocupada com filmes lançados entre 2010 e 2020 é a HBO Go, com 51% do acervo originado no período. Mas essa particularidade pouco tem a ver com uma intenção maior de contemplar anos longínquos.

O filme mais velho da HBO Go é de 1958, enquanto todas as outras plataformas têm pelo menos um título que data de anos anteriores. A única exceção é a Globoplay, que inaugura sua lista com "Perseguidor Implacável", de 1971. Nela, 77% dos longas foram produzidos entre 2010 e 2020.

Mesmo que seja irmã do streaming da Globo, a Telecine Play, no entanto, já valoriza mais as primeiras décadas do cinema. Ela é, entre os serviços analisados, quem vai mais longe no passado, com o drama "Intolerância", de 1916. Ela também é a única com alguma produção dos anos 1920. Além disso, a Telecine ostenta bastiões do cinema, como longas de Fellini e Hicthcock.

A dupla com os maiores acervos é formada por Netflix e Amazon Prime Video, com mais de 3.000 títulos cada uma. Ambas têm as maiores quantidades de filmes produzidos em 2020 e uma avassaladora maioria concentrada nos anos 2010 -no caso da Netflix, 80% de seu cardápio, e no da Amazon, 67%.

Nos cinco casos analisados, os anos 2000 também aparecem com certa força, mas basta voltar o milênio para que os resultados das buscas comecem a rarear. A média de espaço dedicado a lançamentos dos anos 1990, 1980 e 1970, ao juntar os cinco streamings, é de 7%, 3% e 1,5%, nesta ordem.

Os resultados levam a questionar para onde estão indo os filmes clássicos, de diretores cultuados, mas aparentemente esquecidos pelas novas tecnologias. Com a escassez de DVDs e discos Blu-ray, ficou difícil encontrar essas obras.

Algumas estão em serviços de streaming considerados de nicho -aqueles com seleção mais refinada, mas com alcance limitado. No Brasil, os principais exemplos são o Belas Artes à la Carte e o Mubi, onde o preto e branco é por vezes mais frequente que os efeitos especiais coloridos.

Já outras podem ser compradas digitalmente, em plataformas como a Apple TV. Mesmo assim, pode ser difícil reencontrar um Akira Kurosawa ou um Billy Wilder por aí.

O levantamento do DeltaFolha ainda mostra que a quantidade de filmes produzidos por ano não explica o fenômeno.

De acordo com o IMDB, maior base de dados online do audiovisual, nunca se produziu tanto filme como atualmente. Mas, mesmo assim, de todas as estreias que já ocorreram desde a invenção do cinematógrafo, 35% foram entre 2011 e 2020. A quantidade é alta, mas não reflete a  realidade dos catálogos analisados, que chegam a ter o dobro dessa porcentagem  dedicada aos anos recentes.

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