Clementina Duarte: da busca do belo à joia brasileira

Museu do Estado de Pernambuco abriga, na quinta-feira (6), abertura de exposição e lançamento de livro sobre os 50 anos de Arte e Design de Clementina Duarte

Clementina Duarte, designer de joiasClementina Duarte, designer de joias - Foto: Thiago Britto/Folha de Pernambuco

Um despretensioso colar, criado para uso próprio, chamou a atenção do renomado professor de design francês Jean Prouvé. Era década de 1960 em Paris, e a então estudante pernambucana de pós-graduação em Arquitetura e Design do Instituto d’Art et Métiers, Clementina Duarte, iniciava a sua trajetória como designer de jóias. Cinco décadas depois, o seu nome permanece entre os maiores deste universo da criação, já exaltada por figuras como Charlotte Perriand e Pierre Cardin - para este último, ela criou a primeira coleção de jóias modernas, para desfiles do estilista, que passou a produzir as roupas interagindo com as peças elaboradas por Clementina.

E é para registrar um caminho tão bem percorrido, levando o nome de Pernambuco e do Brasil para o mundo, que a convite da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), Clementina Duarte está no Recife para lançamento do livro-catálogo “Clementina Duarte: 50 Anos de Arte e Design”, sob curadoria da crítica de arte paulistana Ana Cristina Carvalho e para a exposição de fotografias de suas peças, com curadoria de Rinaldo Carvalho. A abertura acontece amanhã, às 19h, no Museu do Estado (Mepe), nas Graças. “A Cepe queria fazer um livro com o trabalho ou com a história de uma mulher pernambucana. E eu conto a minha história através do meu trabalho. O convite foi aceito e estou muito feliz com tudo que está acontecendo”, contou Clementina.

A obra bilíngue traz mais de 200 fotografias de peças premiadas das criações de Clementina Duarte, inspiradas na natureza tupiniquim e na arquitetura de Brasília - a partir da época em que morou na cidade construída por Niemeyer, um dos admiradores de suas peças, e lecionou em uma universidade da capital federal, os traços modernistas foram integrados às suas criações. Nascia, então, o que ela denominou de “a joia brasileira”, com criações pensadas através da personalidade de quem ia usá-las.

“É assim desde o início, porque é preciso compreender o ser humano e não criar apenas por criar. É um exercício mental que começou há cinquenta anos e permaneço fazendo, como se fosse a primeira joia”, detalhou. O livro traz, também, bibliografia, cronologia e textos selecionados pelo marido de Clementina, Nelson dos Anjos, com trechos escritos por Gilberto Freyre e Oscar Niemeyer, entre outros nomes como o de Charlotte Perriand, arquiteta e designer francesa, uma das estimuladoras de sua carreira.

Da infância, no Recife, quando desenhava retratos de princesas, a delicadeza dos traços já era percebida. “Era a busca pelo belo, projetando mulheres que viviam em castelos, em um mundo encantado cercado de joias, que me inspirava a desenhar”, contou ela que, décadas depois, passaria a criar peças para serem oferecidas como presentes oficiais a rainhas, princesas e primeiras-damas.

Com peças expostas em Paris e Estados Unidos, além de outros países da Europa, Emirados Árabes e em cidades do Brasil, hoje Clementina Duarte reside em São Paulo, onde mantém atelier de design e de produção. “Voltei para o Brasil, mas minhas filhas permanecem em Washington”, contou.

Clementina Duarte foi premiada em diversas ocasiões, com destaque para a Bienal de São Paulo, quando foi eleita a melhor desenhista de joias, e para condecorações no Ministérios das Relações Exteriores e com a Ordem do Mérito dos Guararapes, em Pernambuco. Realizada e feliz com a dimensão do seu trabalho no Brasil e no exterior, como legado, o seu desejo é de que jovens criadores permaneçam atentos à inovação das formas e à humanidade que devem permear as produções, pensadas individualmente para agregar beleza e elegância. “Sensibilidade e o ‘olho no olho’ para saber para quem está sendo feita cada peça, colocando o ser humano sempre à frente da técnica de produzir, foi o que sempre me guiou. É isso que quero deixar para quem tiver, em mim, inspiração para seguir adiante com o trabalho de produção de joias”, concluiu Clementina.

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