ANNE MOTA

Com protagonista pernambucana, 'Alice Júnior' mostra os desafios de uma adolescente trans

Após entrar no catálogo da Netflix, filme paranaense será exibido no Cinema da Fundação

Anne Mota venceu prêmio de melhor atriz no Festival de BrasíliaAnne Mota venceu prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília - Foto: Olhar Distribuição/Divulgação

Por causa de “Alice Júnior”, a atriz Anne Mota passou por diversos festivais de cinema no ano passado, dando de cara com grandes plateias dentro e fora do Brasil. Essa experiência, no entanto, não diminui seu nervosismo com a estreia do filme em uma sala de cinema do Recife, sua cidade de origem.

“Se eu tiver que falar algo depois da sessão, acho que vou gaguejar horrores. É diferente estar em casa, mostrando meu trabalho para pessoas que já me conhecem. Muitos amigos meus devem ir ver o filme. Provavelmente, vou ficar tímida”, afirma a artista de 22 anos. O longa-metragem, que tem direção do paranaense Gil Baron, ganha pré-estreia no Cinema da Fundação, no Derby, neste sábado (31), às 19h30, e entra em cartaz no mesmo local a partir do dia 5 de novembro.

“Alice Júnior” é o primeiro trabalho profissional de atuação de Anne, que ficou sabendo sobre uma seleção de elenco em Curitiba através de uma publicação no Facebook. Mesmo estando em outro estado, resolveu arriscar. “Na época, eu tinha 17 anos e vi no post que a produção estava atrás de uma adolescente trans para viver a protagonista do filme. Mandei um email, sem currículo nenhum, só com minhas fotos e o link para o meu canal no YouTube”, relembra.

As primeiras conversas com a direção, assim como as leituras iniciais do roteiro, aconteceram via Skype. Depois, Anne foi convidada para ir até o Paraná e por lá ficou sabendo que havia sido escolhida para o papel de Alice. Assim com a atriz, a personagem que dá nome ao longa é uma jovem trans. Ao se mudar do Recife para uma pequena cidade no Interior do Paraná, ela precisa enfrentar as ultrapassadas regras de um colégio conservador.

Interpretar a protagonista da trama não foi a único contribuição da pernambucana para a obra. Creditada como uma das produtoras associadas, ela prestou consultoria ao diretor, assim como ao roteirista e idealizador do filme, Luiz Bertazzo. Suas experiências pessoais e seu ativismo ajudaram a trazer melhorias para o longa, que já está no catálogo da Netflix.

“A história e a personagem já estavam muito bem construídas, mas uma nova camada foi criada a partir da minha chegada ao projeto. Eu estava sempre dando as minhas opiniões, fazendo observações dentro da leitura do roteiro e falando bastante das minha vivências. Isso foi muito bem acolhido e acrescentado ao filme”, revela. A atriz cita como exemplo uma cena em que um amigo de Alice aparece ao lado de um novo amigo. “Ele diz que ela linda é que, quando a viu, não achava que ela fosse trans. Essa é uma afirmação totalmente constrangedora para pessoas trans. Já tinha uma resposta para ela no roteiro, mas comigo ela acabou sendo mais assertiva”, aponta.

Filme Opiniões da atriz foram incorporadas ao roteiro (Foto: Olhar Distribuição/Divulgação)

Para Anne, além de fazer com que mulheres e homens transsexuais se sintam representados na tela, “Alice Júnior” pode trazer conscientização e ajudar na luta contra a transfobia. “Gil e Luiz sempre disseram que queriam um filme bem ‘Sessão da Tarde’. Eles queriam fazer com que todas as pessoas de uma família, dos mais novos aos mais velhos, pudessem sentar no sofá e assistir juntos. Vivemos em um país onde a expectativa de vida de uma pessoas trans é de 35 anos. Isso precisa ser visto e falado de maneira urgente. Essa obra faz isso, mas de uma maneira leve”, comenta.

Anne já havia feito teatro na infância, mas só começou a estudar interpretação depois que foi selecionada para o filme. A confirmação sobre o seu bom resultado no audiovisual veio com dois prêmios de melhor atriz conquistados em festivais brasileiros. Além do Festival Mix Brasil, ela foi agraciada com a categoria no Festival de Brasília, sendo a primeira atriz trans a levar o troféu em 52 anos de história do evento. Atualmente, a recifense se dedica à conclusão de um curso de formação de atores e ao seu canal no YouTube, o 'Transtonada', enquanto aguarda as respostas de testes que já fez para outros projetos.

Com “Alice Júnior” já disponível no streaming, Anne enxerga novas possibilidade para o longa e também para a sua própria carreira. “Eu queria muito que a Netflix me notasse. Meu sonho seria fazer uma sequência do filme ou uma série derivada dele, com a plataforma patrocinando esse rolê”, compartilha.

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