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Comportamento: o impacto social do consumo de ativismo

Tendências de consumo e estratégia de marcas mudaram para se adequar a um momento em que o que compramos, vestimos e comemos reflete nossas escolhas políticas e de vida

Golpe Store, criada por Nara Vilanova e Isabela Faria, vende camisetas e acessórios com mensagens de esquerdaGolpe Store, criada por Nara Vilanova e Isabela Faria, vende camisetas e acessórios com mensagens de esquerda - Foto: Brenda Alcantara/Folha de Pernambuco

O consumo é até mesmo, mas não apenas, compra. As pessoas consomem ideias o tempo inteiro, e isso diz aos outros quem somos. O consumo simbólico se apresenta de forma cada vez mais intensa dentro de uma realidade em que o que comemos, vestimos, acreditamos nos faz diferentes e, ao mesmo tempo, nos aproxima de nossos iguais. Isso vai muito além do aspecto material. Graças às redes sociais, o consumo de ativismo vem crescendo e criando novas dinâmicas de ser e estar no mundo.

Patrícia
vendeu o carro e há um ano se locomove apenas de bicicleta, percorrendo mais de 20km todos os dias para trabalhar, levar os filhos à escola e se divertir. Chyrllene começou a cozinhar para arrecadar dinheiro e poder tratar dos cães e gatos que resgata das ruas. Mariana organiza eventos para trocar roupas e minimizar o impacto da moda sobre o meio ambiente. Nara e Isabela estamparam camisetas para protestar na época da Copa e acabaram criando uma grife de sucesso, que vende acessórios com viés político. Todos esses casos demonstram a força que o consumo de ativismo vem alcançando na atualidade, impulsionado pelas possibilidades que a internet passou a oferecer.

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"As redes sociais são fundamentais. A economia compartilhada só pôde existir porque existem as redes sociais, que permitem mobilizar gente no mundo todo", diz a designer e profissional da moda Mariana Monteiro, organizadora do Ateliê Ourela (que ela descreve como um sistema de produtos e serviços que possibilita que as pessoas tenham experiências democráticas de moda, sem que seja necessário pagar caro por isso).

Mensalmente, é realizado um espaço de troca onde as pessoas podem levar até 20 peças, pagando uma taxa de 30 reais para ajudar na logística do evento, que é itinerante e terá sua próxima edição no dia 20 de outubro, na Etiqueta Verde (rua Conselheiro Portela, 417, Espinheiro).

"A gente vai pontuando cada peça de acordo com o estado, o acabamento, o material. Uma peça mais bem cuidada ganha mais pontos. Se for uma marca cara mas a peça estiver mal cuidada, ela vai pontuar menos do que outra que não é de grife, mas está em melhores condições. O critério da troca é a peça em si, não a subjetividade da etiqueta. E a pontuação não vence. Se a pessoa quiser, guarda o crédito para usar em outros eventos", descreve Mariana.

Fazendo um trabalho 'de formiguinha' contra o preconceito com roupas de brechó, Mariana acredita que a ação é ética e beneficia o meio ambiente. "Infelizmente muitas empresas de moda poluem, escravizam pessoas, e cabe ao consumidor agir diferente, fiscalizar, cobrar, praticar o consumo sustentável", enumera.

A iniciativa vem conquistando adeptas que esperam ansiosas pelos eventos, e que muitas vezes acabam se tornando amigas para além dos momentos de troca. "`Pequenas atitudes são políticas, e o que fazemos no dia a dia importa muito. Através dos nossos hábitos de consumo, a gente pode exigir coisas dos empresários, para que adequem o que fazem e atendam às nossas preferências", afirma a designer, que acredita que "as atitudes solidárias são contagiosas".

"As redes permitem que a gente tenha esse contato com o igual e com o diferente. É preciso poder alcançar redes paralelas, que façam parte do mainstream e tragam mais conhecimento do mundo", afirma.

Ateliê Ourela busca minimizar o impacto da moda sobre o meio ambiente

Ateliê Ourela busca minimizar o impacto da moda sobre o meio ambiente - Crédito: Mariana Monteiro/Ateliê Ourela

"Sem ajuda da internet, a gente não teria alcançado a dimensão que tem hoje, tanto na divulgação de nossas causas como, em nosso caso, no aspecto comercial. A rede ajuda a sair do gueto, ou a entrar nele", conta por sua vez Chyrllene Albuquerque, que abandonou a carreira de designer de fotografia para se dedicar à Juju Vegan, empresa que abriu para poder custear as mais de doze cirurgias de um gatinho paraplégico que socorreu nas ruas, em 2013.

Cinco anos depois, ela tornou-se referência em fast-food vegana no Recife, oferecendo mais de 40 produtos diferentes (entre refeições, embutidos, doces e salgados) que são distribuídos através de seis revendedores "de Piedade a Olinda", além das vendas diretas aos consumidores. "Somando os contratados e prestadores de serviço, hoje a gente emprega ao todo cinco famílias", comemora.

A Juju Vegan não utiliza produtos de origem animal e é sucesso de público. Muitos dos consumidores são estudantes universitários que não são veganos nem vegetarianos, mas apoiam a causa e têm curiosidade a respeito dos produtos. "Sinto que temos um status diferenciado, é quase uma questão de moda. Muita gente chega querendo provar, em busca de informação, se sentindo 'descolado' por estar comendo uma coxinha de jaca. Eu me sinto feliz e valorizo essa experiência deles, porque ainda que a maioria não vire vegana, a gente está conseguindo levar um pouco de conhecimento sobre essa filosofia para as pessoas", destaca.

Chyrllene Albuquerque, da Juju Vegan, virou referência em fast-food vegana no Recife, com mais de 40 produtos

Chyrllene Albuquerque, da Juju Vegan, virou referência em fast-food vegana no Recife, com mais de 40 produtos - Crédito: Brenda Alcântara / Folha de Pernambuco

"Quem compra na loja tem uma postura amorosa, afetiva. Quem vem aqui, é massa", confidencia Nara Vila Nova, que junto com a sócia Isabela Faria criou, em maio, a grife Golpe Store. "A ideia começou numa brincadeira. A gente fez algumas camisetas como quem faz para um bloco de carnaval, só para os amigos. De repente, o telefone começou a bombar, com as pessoas querendo comprar. Eram pessoas de todo o Brasil, que pensavam igual à gente e queriam se posicionar diante da realidade que vivemos de uma forma saudável, com ironia. A gente não tinha capital de giro, acabou inicialmente trabalhando através de compra colaborativa e as pessoas não se incomodavam de pagar previamente, por uma coisa que não era palpável", relembra Nara.

Na sequência, elas abriram uma lojinha de 15m² na rua João Ramos, 252, Graças. "É um espaço modesto, mas é um lugar de aconchego, de acolhimento. As pessoas vêm e ficam felicíssimas. Querem falar, desabafar, trocar ideias. E dizem que nossas camisetas formam opinião", afirma por sua vez Isabela.

São dezenas de produtos, como bottons, bandeiras, adesivos, bijuterias e outros acessórios e, claro, camisetas - que vão do carro-chefe inicial "É Goooollllllpe" até a versão pernambucana e debochada em homenagem à União das Repúblicas Socialistas da América Latina (Ursal), que traz a imagem de uma La Ursa da artista plástica Luciana Mafra, passando por diversas variações em apoio a Lula e a Haddad.

Golpe Store, criada por Nara Vilanova e Isabela Faria, vende camisetas e acessórios com mensagens de esquerda

Golpe Store, criada por Nara Vila Nova e Isabela Faria, vende camisetas e acessórios com mensagens de esquerda - Crédito: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

Golpe Store, criada por Nara Vilanova e Isabela Faria, vende camisetas e acessórios com mensagens de esquerda

"As pessoas dizem que nossas camisetas formam opinião", afirma Isabela Faria, da Golpe Store - Crédito: Brenda Alcantara/Folha de Pernambuco

Como a legislação eleitoral proíbe a venda e doação de camisetas pelos comitês, a Golpe Store é a saída que os eleitores de esquerda têm encontrado de externar suas preferências políticas. "Vestir a camisa" é, literalmente, levar simbolismo para a prática cotidiana, ampliando a visibilidade da causa. Ou de várias causas, como aponta a dentista Patrícia Sampaio.

Patrícia já foi coordenadora da Marcha das Vadias em Pernambuco e militante pró-humanização do parto. "São muitas causas a defender. Quem consegue perceber a questão do privilégio e da opressão, acaba enxergando que é preciso ouvir e respeitar as vivências diferentes da sua, enxergar o que as pessoas têm a dizer pra você", analisa.

Atualmente, duas vertentes principais têm concentrado sua atenção. Uma delas é o feminismo negro, que a atraiu após ser mãe de duas crianças "não brancas" e em especial de Nina, cuja cor de pele é mais escura que a do irmão, Iago. "Não é meu lugar de fala e não posso me posicionar, mas as mulheres negras têm muito o que nos ensinar. É um dos movimentos que mais respeito", aponta ela, que lamenta o fato de que seus filhos sejam afetados pelo racismo e precisem enfrentar, desde cedo, experiências pelas quais ela (filha de uma família branca de classe média) jamais passou na mesma idade. 

A outra paixão de Patrícia é o cicloativismo. "Gosto de usar a cidade com tudo o que ela tem a oferecer", afirma ela. De 2012 para cá, implementou a bicicleta como único meio de transporte da família. "Antes, eu vivia presa dentro de um apartamento, e quando saía, ficava presa dentro de um carro que acabava preso em um engarrafamento", critica. 

A dentista Patrícia Sampaio tem o cicloativismo entre suas paixões

A dentista Patrícia Sampaio tem o cicloativismo entre suas paixões - Crédito: Arthur de Souza/Arquivo Folha

Ela pedala de Boa Viagem até o Cordeiro três vezes por semana, e nos outros dias vai à Ilha do Leite. "Se quisesse, poderia ir a pé. Mas ninguém mais quer andar. Minha irmã, por exemplo, trabalha a 300m de casa e vai de carro, por conta de uma falsa percepção de insegurança", conta. 

Atuante nas redes sociais, Patrícia evita expor os filhos à programação da TV aberta. "Enquanto mãe, faço um ativismo de vivência, de praticar aquilo que prego, e não gosto da ideia de criar um consumismo desnecessário, que faça com que as crianças confundam felicidade com o fato de possuir coisas", relata.

   Um sistema que transforma ostentação em status quo

A forma como o consumo de ativismo tem se desenvolvido, após a consolidação das redes sociais, é o tema de um livro que acaba de ser lançado no Recife pelas pesquisadoras Ana Paula de Miranda e Izabela Domingues. Ambas são professoras de Comunicação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e consultoras da empresa Consumix, que é especializada em tendências de consumo e estratégia de marcas.

"As pessoas estão de certa forma 'ostentando' causas, comungando de ideias que elas apoiam mesmo que não sejam ativistas presenciais, que vão para a rua, para o enfrentamento direto com instituições. Muitos chamam esse ativismo de 'preguiçoso', mas a gente percebe que ele tem um impacto e gera reverberações sociais", destaca Izabela.

Izabela Domingues, que escreveu livro com a pesquisadora Ana Paula de Miranda, estuda as reverberações do consumo de ativismo

Izabela Domingues, que escreveu livro com a pesquisadora Ana Paula de Miranda, estuda as reverberações do consumo de ativismo - Crédito: Brenda Alcântara / Folha de Pernambuco

Como exemplos recentes, ela cita o grupo no Facebook que conseguiu mobilizar mais de dois milhões de mulheres contrárias à candidatura de Jair Bolsonaro, ou as diversas empresas que vêm procurando agregar valor a seus produtos e serviços - caso da Skol, que faz campanhas ressaltando a diversidade de gêneros, e da Mattel, que repaginou a Barbie (mundialmente criticada como modelo nocivo de padrão de beleza imposto às meninas) ao criar uma série de bonecas com perfis diversificados (altas, baixas, gordas e com diversos tons de pele e tipo de cabelo, além de homenagear ícones feministas como a pintora mexicana Frida Kahlo e a matemática afro-americana Katherine Johnson, uma das primeiras mulheres a trabalhar na agência espacial NASA).
"É o capitalismo percebendo que o ativismo tem força e poder de venda. Muitas pessoas agem assim, 'não vou pra confrontação com a cavalaria, mas quero essa bonequinha que simboliza isso'", brinca.

"O consumo é até mesmo, mas não apenas, compra. A gente consome ideias o tempo inteiro, e é isso que vai dizer ao mundo quem somos. Isso vai muito além do material", explica a publicitária. As marcas se aperceberam disso e estão tentando se tornar 'ativistas' também, possibilidade que é questionada por alguns autores.

"De toda forma, aí tem um enorme desafio, porque essa mesma engrenagem de mídia social faz os consumidores fiscalizarem e, caso encontrem falhas, criticarem as marcas. Como pregar a defesa da diversidade se na folha de pagamento não tem pluralidade étnica ou de gênero? Como falar em igualdade se paga menos às mulheres? Há toda uma cobrança por transparência, para que além de trabalhar imagem e discurso, se invista em ação, na materialização prática daquilo que a marca diz que defende. É preciso tomar cuidado para não parecer oportunista, porque hoje temos uma confrontação junto às empresas, que são mais facilmente desmascaradas", alerta Izabela.

O livro custa R$ 49 e foi lançado pela editora Estação das Letras e Cores, e traz muitos pontos que podem interessar não apenas a quem atua na área da Comunicação. "Em resumo, podemos dizer que todo consumidor ativista é um consumidor de ativismo, mas nem todo consumidor de ativismo é ativista", diferencia Izabela, que conta que o consumidor de ativismo geralmente vai sinalizar seu apoio por meio das redes sociais ou de forma mais indireta, como ao adquirir determinados produtos.

Assim, a pessoa se insere em determinado grupo e mostra que simpatiza com aquela causa. Ela sintetiza: "como naquela música de Chico Science, é assim que se mostra 'de que lado você samba, de que lado você vai sambar'".

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