Conferência homenageia os 118 anos de Gilberto Freyre

Antropóloga e escritora Fátima Quintas vai ministrar nesta quinta-feira (15) palestra sobre o intelectual pernambucano

Fátima Quintas chegou a conviver com Gilberto FreyreFátima Quintas chegou a conviver com Gilberto Freyre - Foto: Rafael Furtado/ Folha de Pernambuco

Quando menino, Gilberto Freyre só queria saber de desenhar. À medida que o tempo passava, seu pai, o juiz e professor Alfredo Freyre, foi ficando preocupado com a possibilidade de o filho ter algum déficit mental e pediu ajuda a dois amigos. O primeiro, o pintor Telles Júnior, logo desistiu das aulas. O segundo foi o missionário inglês William Henry Canada, fundador do Colégio Americano Batista do Recife. Coube a Mr. William a proeza de alfabetizar o menino “inimigo de ler, de escrever e de contar”, como o próprio Gilberto se descrevia, aos oito anos. Em inglês.

Esta e outras histórias podem ser conferidas na conferência “Recordando Gilberto Freyre”, que a antropóloga e escritora Fátima Quintas vai proferir nesta quinta-feira (15), a partir das 18h, na livraria Cultura Nordestina Letras & Artes, no bairro do Poço da Panela. O encontro é gratuito e vai comemorar os 118 anos de nascimento daquele que é um dos maiores intelectuais brasileiros. Ele era amigo de Mário Quintas, pai de Fátima, e esta posteriormente foi, durante vários anos, pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco, instituição idealizada e fundada por Gilberto.

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"Tivemos um longo convívio. Ele era como um segundo pai para mim, e na minha vida tenho buscado alianças entre esta afetividade pessoal e minha admiração e vontade de conhecer, de forma mais técnica e profunda, a obra desse gênio", explica Fátima, que dedicou cinco de seus 50 livros à trajetória e às ideias de seu mentor, falecido em 1987.

"Gilberto Freyre foi o primeiro sociólogo e antropólogo do mundo a trabalhar com a história privada, não-oficial. Ele foi além dos atos heroicos que, antigamente, dentro da lógica positivista, eram o único foco dos estudiosos. Gilberto queria saber do cotidiano, das histórias reais da vida do povo. 'Me interesso pelo buraco da fechadura, sou um bisbilhoteiro', ele dizia. E os métodos novos que criou ajudaram a renovar as Ciências Sociais", aponta.

Mesmo quem não conhece muito sobre a obra de Gilberto Freyre terá a oportunidade de saber sobre sua infância, adolescência e vida adulta; os autores e ideias que o influenciaram; sua originalidade, reconhecida em nível mundial, e os impactos que seus livros causaram. "Gosto de lembrar que ele começou a representar o mundo por meio do desenho e só depois passou à escrita, porque isso reflete a forte dimensão estética que tinha da realidade e que se perpetuou ao longo de sua obra e sua vida", diz Fátima, convocando as pessoas, especialmente os jovens, a lerem mais o autor pernambucano, que apesar dos inúmeros convites jamais quis sair do seu Recife natal.

"Ele atualmente vem sendo menos lembrado do que merece. Isso é triste e é resultado direto da forma como nossa educação vem sendo conduzida. Há falhas na construção do pertencimento, da cidadania. Quem conhece e ama sua história tem uma identidade mais sólida. Eu quero partilhar um pouco dessas histórias", afirma.

Aberta ao público
Na casa onde o sociólogo morou, funciona a Fundação Gilberto Freyre, que oferece visitas guiadas ao espaço e realiza diversas ações educativas voltadas para crianças, jovens e adultos - inclusive hortas, oficinas em gastronomia, arte e escrita, passeios pelo sítio ecológico e o passeio "Recife Sobrenatural", baseado no livro "Assombrações do Recife Velho" (1955). Embora não esteja prevista nenhuma comemoração específica voltada para seu aniversário, a presença de Gilberto pode ser percebida em cada detalhe.

Sônia Freyre Pimentel, filha do intelectual e presidente da fundação, diz que o pai foi uma pessoa muito além do seu tempo. "Muitos de seus textos continuam extremamente atuais", aponta. Ela comemora o que considera uma redescoberta da obra freyreana. "Temos muitas teses de doutorado e mestrado, muitos novos livros sendo produzidos. A quantidade de pesquisadores nos últimos anos tem sido tão expressiva, que está sendo feita uma espécie de fila de atendimento. Como não temos capacidade de atender tanta gente, está sendo necessário marcar e esperar pela data", descreve. Ela credita o movimento à originalidade do olhar de Gilberto Freyre, "que nos deixou muitas pistas de como enxergar a realidade encoberta em nosso país".

Serviço:
Conferência "Recordando Gilberto Freyre”
Nesta quinta-feira (15), às 18h
Local: Livraria Cultura Nordestina Letras & Artes - rua Luiz Guimarães, 555, Poço da Panela - Fone: (81) 3243.3927
Acesso gratuito

Fundação Gilberto Freyre
Rua Dois Irmãos, 320, Apipucos - Fone 3441-1733
Ingresso: R$ 10 (inteira) ou R$ 5 (meia entrada para idosos, professores e estudantes)

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