Conflito entre gerações no filme alemão “Toni Erdmann”

Longa-metragem está em cartaz no Cine Rosa e Silva, fica entre o drama e a comédia

Na trama do longa da diretora alemã Maren Ade, pai (Peter Simonischek) tenta retomar o contato com a filha (Sandra Hüller)Na trama do longa da diretora alemã Maren Ade, pai (Peter Simonischek) tenta retomar o contato com a filha (Sandra Hüller) - Foto: Divulgação

O ano começa com um filme luminoso. Em mais de um sentido. “Toni Erdmann” é um filme da luz intensa, da claridade. Mas é também um filme que, como nas célebres últimas palavras de Goethe, pede e lança “mais luz” sobre um mundo razoavelmente sombrio. Essa luz vem, felizmente, com humor - ao contrário do que fazem os místicos sorumbáticos da Europa ex-comunista. Pois Toni (Peter Simonischek) não é mais que o duplo de Winfried, um inquieto professor de música, lá com seus 60 anos.

Toni não é um hippie tardio ou coisa assim. Ele é uma máscara num mundo de máscaras. Não um disfarce, mas uma espécie de máscara que existe para desmascarar.

Ninguém se engane: Toni não quer mudar o mundo. Contenta-se em corrigir suas relações com a filha, Ines (Sandra Hüller). Ela é uma poderosa executiva de uma firma poderosa, no momento em Bucareste, a serviço da mais próspera das indústrias da atualidade, a de demissões e terceirizações.

Ines não é nem arrivista nem inescrupulosa. Não mais do que exige a atividade, em todo caso. Ela é, antes de tudo, atarefada. Segue bem no mundo que lhe foi dado viver: com o celular em punho e o indefectível terninho, trabalha mais ou menos 24 horas por dia, adulando clientes, produzindo relatórios etc. É nesse mundo dito corporativo que entram Winfried e Toni. Ou antes, é Toni que irrompe em Bucareste para férias, trazendo perucas, maquiagem, terno ensebado e seu humor, para pânico de Ines.

Ele se fará passar por um exótico consultor, por embaixador alemão, por não importa quem: a cada instante é como se recusasse a condição de peixe fora d’água da globalização e do neoliberalismo para instalar nesse mundo o pleno constrangimento.

Constrangimento primeiro de Ines, claro, mas não só. Esse mundo não comporta o humor. Ao mesmo tempo, ele parece não reconhecer as máscaras de Toni. Claro, pois o mundo corporativo é um mundo de máscaras.

É nessa medida que Toni pode transitar por ele, passar incólume com sua farsa: seu brinquedo consiste em produzir uma espécie de caricatura dessa gente ultrasséria, tão séria que não consegue nem mesmo acreditar na caricatura que se faz diante deles. Mas o objetivo central de Toni não é desmontar esse universo (que nos governa, diga-se).

Mais modestamente, tudo que aspira é a restabelecer relações com Ines.
Com efeito, ela se mostrará mais revoltada que surpresa quando Toni lhe faz a pergunta mais ingênua e mais terrível do mundo: o que é a vida? Essa é de embatucar qualquer um. A única resposta possível para ela, afinal, é a vida que se leva. E essa também parece ser a questão central que a diretora alemã Maren Ade endereça a todos os seus espectadores.

Ao contrário

Daí, aliás, “Toni Erdmann” ser, entre outras coisas, um filme sobre um novo conflito de gerações. No mais célebre até hoje, aquele dos anos 1960, eram os jovens que questionavam os usos e costumes dos mais velhos. Hoje, ao contrário, são os coroas que precisam chamar a atenção dos jovens para que não dediquem a existência a escalar cargos e salários sem nem ao menos saber o que isso significa, para o que serve, o que se ganha e o que se perde com isso.

É verdade que Clint Eastwood já nos tinha gratificado com uma bela lição que o passado ofertava ao presente careta (em “As Pontes de Madison”).

Maren Ade observa um outro mundo e contorna habilmente o melodrama com traços de comédia, num filme cuja limpidez parece sugerir mesmo a obrigação de toda forma de arte, mas do cinema em especial: trazer ao mundo um pouco mais de luz. O ano, admita-se, começa bem.

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