Conflitos no filme 'Western' surgem pelo que não é dito

Produção, em cartaz no Cinema do Museu, apresenta sua potência narrativa a partir das sutilezas

Meinhard Neumann protagoniza a tramaMeinhard Neumann protagoniza a trama - Foto: Zeta Filmes/Divulgação

As situações dramáticas de "Western" - filme em cartaz no Cinema do Museu - permanecem em silêncio durante quase todo o filme. Há indícios de conflitos e crises, mas os temas ficam à espreita, nas entrelinhas das falas, nas curvas das imagens. Escrito e dirigido por Valeska Grisebach, o filme conta a história de operários alemães que vão trabalhar em uma construção na fronteira entre a Bulgária e a Grécia. Aos poucos, as relações entre os visitantes e os moradores das comunidades da região se tornam cada vez mais tensas e agressivas.

O roteiro do filme tem o curioso mérito de deixar o drama e o intenso movimento emocional no subterrâneo da história. Cabe aos atores desenvolver um trabalho impactante através de gestos, palavras truncadas, ações ambíguas. O protagonista é Meinhard Neumann, que interpreta um personagem com mesmo nome. É seu primeiro trabalho como ator e está nele o núcleo dramático do filme, a força secreta do enredo: a maneira como constrói relações com as pessoas ao redor, a forma como reage às eventualidades da vida.



A região é fracamente habitada e pouco evoluída. O grupo de trabalhadores tem dificuldades com as coisas mais simples: habitação, acesso à água. Em um momento de diversão, bebem cerveja e se banham na beira do rio. Três mulheres estão na outra margem; uma delas perde o chapéu, que é resgatado pelo líder dos trabalhadores, Vincent (Reinhardt Wetrek, também estreando no cinema). A interação é breve mas impactante: agressivo, Vincent tenta segurar a moça; ao ser recusado, força um breve afogamento, inibido por seus colegas.

O estilo de filmagem de Valeska se aproxima de um conceito de cinema europeu guiado pela desdramatização da realidade. Cenas cuja potência emocional parecem restritas a pequenas ações dos atores, sem grande interferência de ferramentas tradicionais da linguagem - movimentos de câmera, close, montagem acelerada. É através das miudezas e dos pequenos momentos de delicadezas, na linguagem cinematográfica e no modo de contar a história, que "Western" parece atingir sua força e plenitude.

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É de pequenas agressões que a história avança. A barreira da linguagem, do preconceito, da história passada (guerras, conflitos raciais) criam um ambiente que parece sustentado de forma frágil - qualquer palavra ou gesto equivocado ou mal interpretado pode gerar agressão. É o tipo de situação que parece sugerir diferentes encaminhamentos sobre crises de valores, sociais e política apenas através do potencial sugestivo das imagens, das falas, dos processos e falhas nas relações humanas.

Cotação: bom

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