Consumo de música na internet muda a forma de distribuição e lançamento de novos discos

Apesar da falta de recursos financeiros para tornar o projeto de um álbum realidade, a mídia física continua sendo o sonho de muitos artistas

Marcelo Soares, diretor executivo do Estúdio Muzak, Marcelo Soares, diretor executivo do Estúdio Muzak,  - Foto: Beto Figueiroa/Divulgação

Foi-se o tempo em que, para ouvir determinada canção, era preciso ir até uma loja e adquirir um CD. Com o advento da internet, a forma como consumimos esse tipo de conteúdo mudou e muito. Segundo o último relatório anual do Pró-Música Brasil, antes chamada Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), divulgado em maio do ano passado, entre 2015 e 2016, os serviços de streaming de música, como Spotify e Apple Music, cresceram 52,4% no País. O faturamento nesta modalidade já é quase três vezes maior do que a venda de discos físicos, que caíram 43,2% nesse mesmo período, de acordo com os dados.

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Uma das particularidades deste novo tipo de plataforma é que ele permite ao ouvinte ter acesso à música de forma personalizada. Sem a obrigação de escutar um álbum inteiro, é possível escolher apenas a canção que se quer. Por isso, muitos artistas têm apostado nos singles. No ano passado, a cantora Anitta cresceu em popularidade, chegando ao top 10 da revista "Billboard" graças a sua estratégia de divulgar um single diferente, com clipe, por mês. Mas nada de álbum novo desde "Bang", em 2015.

O conceito de disco com várias faixas ainda não foi abandonado por completo pelo mercado fonográfico, mas sua relevância no contexto atual é uma discussão que ronda a mente de quem trabalha com música. Essa é uma mudança que o produtor Marcelo Soares vem acompanhando de perto. Diretor executivo do Estúdio Muzak, em Casa Forte, ele observou que a procura por gravações de álbuns independentes diminuiu ao longo dos 25 anos de existência da empresa. "Percebo que os artistas que aparecem aqui, geralmente, querem gravar algumas músicas específicas e ir abrindo para o público logo. Eles estão se adaptando à demanda atual, que é muito mais rápida. O público não espera", conta.

Natural de Goiana, cidade recentemente incorporada à Região Metropolitana do Recife, Lucas Torres está em vias de "dar à luz" seu primeiro álbum. A estreia oficial de "Signoser" só ocorre no dia 23 de março, com show no Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife Antigo. Mas, há mais de dois meses, prévias de três faixas estão disponíveis para audição no SoundCloud. "Pouco antes da estreia, vamos liberar o single de 'Quando', que conta com participação de Almério (intérprete de Caruaru). A ideia é alertar as pessoas sobre o que está vindo por aí e gerar um burburinho", revela.

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O jornalista e produtor musical Jarmeson de Lima analisa que as canções avulsas são uma saída para quem está no início de carreira. Elas podem servir para testar a recepção do público ou familiarizá-lo com o novo som. "Vejo, cada vez mais, a volta de uma tendência dos anos 1970. Na época, as gravadoras levavam às lojas um compacto, com só algumas faixas, antes do vinil completo, para agitar os fãs", relembra.

A estratégia, segundo Jarmeson, não representa o fim do disco. "Para o artista que não quer ficar preso a só um hit, é importante ter em mãos um trabalho mais consistente", afirma. Ainda de acordo com o especialista, é preciso estudar qual o momento certo para investir na confecção de um álbum. "O rapper Rincon Sapiência, por exemplo, passou oito anos atuando apenas com singles. Em 2017, ele apresentou 'Galanga livre', seu primeiro álbum, que foi considerado pela maioria dos críticos como um dos melhores do ano", conta.

Para Jarmeson de Lima, produtor, o músico deve estudar qual o momento adequado para lançar um disco

Para Jarmeson de Lima, produtor, o músico deve estudar qual o momento adequado para lançar um disco - Crédito: Paulo Almeida/Folha de Pernambuco



As novas plataformas de distribuição também democratizaram a produção musical. Com o acesso mais amplo à tecnologia, ficou mais fácil gravar uma canção e divulgá-la. A dificuldade para os artistas, agora, é conseguir se destacar entre tantos sons que habitam o universo digital. "Comunicar da forma mais real possível é imprescindível. Não é só postar uma faixa e pronto. Se você não tocar quem te escuta com seu trabalho, ele será só mais um na multidão. Tento chegar o mais próximo que eu posso das pessoas com a minha verdade", entrega Lucas Torres.

O problema da viabilização

Por mais que o consumo online tenha ganhado força nos últimos anos, gravar um disco continua sendo um sonho para muitos músicos. "Acredito que a mídia física, muitas vezes, atende um gosto do próprio artista. A gente que se dedica tanto a um trabalho sente a necessidade de vê-lo materializado. É como um suvenir", declara Lucas Torres. Para conseguir concretizar seu desejo, ele precisou contar com a ajuda dos amigos.

"É uma obra totalmente coletiva. Foram muitos parceiros envolvidos nesse processo, que demorou dois anos. O lado bom de não ter o aporte de uma gravadora é conseguir chegar até outros artistas, sem intermediários, e estabelecer parcerias", diz o cantor.

A falta de recursos financeiros, comumente, é o primeiro obstáculo para a viabilização de um álbum independente. "Fazer um CD não é barato. É necessário pagar estúdio, mixagem, finalização, prensagem, entre outras coisas. É importante ter consciência desses custos todos e refletir se vale à pena investir tanto para ter esse material em mãos, principalmente, quando você está começando", alerta Jarmeson.

Juvenil Silva já produziu três discos de forma independente

Juvenil Silva já produziu três discos de forma independente - Crédito: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco



O músico recifense Juvenil Silva conhece bem esse tipo de dificuldade. Todos os três discos que produziu até agora foram feitos sem patrocínio. "Sempre suei para conseguir realizar meus projetos. O primeiro disco paguei com o dinheiro da rescisão de um emprego que eu havia deixado. O segundo eu só paguei após o lançamento, com os cachês dos shows que fiz", compartilha. Em seu próximo trabalho, batizado de "Suspenso", ele recorreu ao financiamento coletivo digital, recurso que tem sido muito utilizado por diversos artistas.

Através de sites como Catarse, Kickante e Vakinha, os criadores recebem apoio direto do público para tocar seus projetos. Os apoiadores ganham, em troca, recompensas de acordo com o valor doado. No caso da campanha gerada por Juvenil, as retribuições iam da possibilidade de ouvir as músicas antes do lançamento até um show particular.

"Foi a primeira vez que fiz isso. É um processo muito desgastante, cansativo, mas ao mesmo tempo muito bom. Gera envolvimento com o público e te dá a oportunidade de juntar uma galera do Brasil todo, comprando sua briga", comemora. O novo disco será lançado até o fim de março.



Outra saída abraçada por muitos músicos e produtores é apelar para os editais de incentivo cultural, seja por meio de órgãos governamentais ou de empresas. Em Pernambuco, o edital mais conhecido e concorrido é o Funcultura, disponibilizado pelo Governo do Estado. Há um porém, na visão de Jarmeson de Lima, nesse tipo de ferramenta.

"É preciso fazer um projeto, submetê-lo à avaliação e, se aprovado, esperar a liberação da verba. Esse processo todo, normalmente, demora uns dois anos. Esse tempo, no mercado musical, pode representar o começo e o fim de uma carreira. Sem contar que corre o risco desse trabalho ficar datado. Apostar tudo nos editais é um erro que faz com que muita gente perca o timing de lançamento de um disco", critica.

 

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