Contradições diante da dor no filme "O Silêncio do Céu"

Nesta entrevista, Dutra fala sobre a parceria entre atores de diferentes países e estilos, além de suas regras autorais de criação.

O OrnitólogoO Ornitólogo - Foto: Divulgação

 

A primeira cena de “O Silêncio do Céu”, filme do paulistano Marco Dutra em cartaz no Cinema São Luiz e no Cinema do Museu, é o que provoca as tensões do enredo: Diana (Carolina Dieckmann) é estuprada em casa, por dois homens. Mario (Leonardo Sbaraglia), seu marido, chega à noite, com os dois filhos pequenos do casal, e observa sua esposa com ansiedade. Depois, o filme retorna para a cena inicial, agora do ponto de vista de Mario: descobrimos que ele estava do lado de fora da casa, e no curto intervalo de alguns segundos entre ver o crime sendo cometido e tomar alguma atitude, os estupradores fogem. Essa é a amargura que move os personagens: uma mulher destruída por um crime brutal, um homem que carrega a vergonha da paralisação e do atraso num momento fundamental. A partir daí, acompanhamos a jornada de Mario, homem carregado de fobias que acabou de reatar seu casamento de 14 anos - os últimos dois separados -, em busca de aceitação e vingança, enquanto Diana procura cuidar de suas feridas sozinha, em silêncio. Nesta entrevista, Dutra fala sobre a parceria entre atores de diferentes países e estilos, além de suas regras autorais de criação.

Como surgiu a oportunidade para dirigir o filme? Como foi a parceria internacional?
Fui convidado pelo Rodrigo Teixeira, produtor do meu filme anterior (“Quando eu era vivo”). Ele me entregou um roteiro de Lucía Puenzo e Sergio Bizzio. O roteiro era baseado em um livro de Sergio. Rodrigo me deu sem dizer do que se tratava. Então entrei na leitura sem saber nada. Foi uma estratégia excelente, porque eu ia lendo e sentindo aos poucos que conseguiria encontrar um filme interessante ali. A história se passava em Buenos Aires. A ideia original era adaptá-la para São Paulo, mas essa estratégia logo nos pareceu errada - algo ia se perder. Encontramos em Montevidéu o “meio do caminho” ideal para filmar, juntando uruguaios, argentinos e brasileiros.
O que te atraiu ao roteiro?
Todo filme que me interessa tem alguma contradição bem no centro, algo complicado, difícil de digerir ou de entender facilmente. No caso desse roteiro, era a ideia de que os dois protagonistas não conseguiam se comunicar a respeito de seus traumas - um deles bastante real e o outro psíquico. O fato de que tudo acontecia numa família aparentemente perfeita de classe média me atraiu - é um universo do qual gosto, talvez porque seja um pouco o lugar de onde vim. E havia ainda a possibilidade de fazer do filme uma tragédia. O roteiro original era redentor, mas eu sentia que a história era trágica, que precisaria mudar isso. Nunca tinha feito um filme assim antes. Me pareceu um desafio.
O filme é baseado em um livro. Quais as principais questões que encontrou nesse processo de adaptação?
Eu adaptei, junto com Gabriela Amaral Almeida, um livro de Lourenço Mutarelli (para o filme “Quando eu era vivo”). Me sentia apto a encarar outro romance. Mas meu envolvimento com o projeto foi peculiar: eu li antes o roteiro, adaptado pelo próprio autor e por Lucía. Ou seja, já havia ali uma ponte entre livro e roteiro criada por eles previamente. Fui ler o livro depois, e fiquei positivamente surpreso: as escolhas estruturais e temáticas feitas por eles eram muito boas. Ainda assim, tive vontade de resgatar elementos pontuais do livro que eles não tinham usado. O livro é todo escrito em primeira pessoa, na voz de Mario. Entendi aos poucos que no filme a voz narrativa deveria ser mais estilhaçada.
Carolina Dieckmann é uma atriz experiente, mais ligada à TV. Como foi o trabalho com ela e com Leonardo Sbaraglia?
São atores com escolas e formações diferentes, mas que se deram bem desde o primeiro encontro. São bons atores. As trocas entre ambos foram genuínas. E há um elemento especialmente cruel para os atores: trata-se de um casal que viveu bem por muitos anos, mas nós os pegamos num momento de crise, e nunca os vemos fora dela. Trabalhamos com cuidado para revelar, na crise, um passado harmônico que se perdeu.
Sobre os personagens: eles passam por graves dores emocionais, e você parece não interessado em opinar sobre eles, e sim construir essa situação dolorosa. Enquanto contador de histórias, como costuma se posicionar diante de seus personagens?
Os personagens é que mandam. Eu tenho que me esforçar pra escutar o que eles querem. É um conselho de Stephen King que tento seguir com carinho. Minha opinião em si provavelmente não vale muito, há gente mais gabaritada para ir fundo em assuntos políticos, psíquicos e físicos complexos como os que vivem Diana e Mario. É claro que eu pesquiso, estudo e leio tudo que posso sobre o que estou filmando, mas só fiz esse filme (como fiz os anteriores) porque gosto de Diana e de Mario enquanto personagens, os entendo, e meu trabalho é defendê-los dramaturgicamente até a fim. Bons personagens (especialmente numa história trágica) são contraditórios, covardes, erram, mentem, calam - enfim, atravessam o inferno. Às vezes voltam, às vezes não.
O que comentaria sobre a cultura do estupro? Em que sentido a arte pode afetar a realidade?
Gostaria muito de ser otimista, porque a arte afetou a minha realidade. Hoje discutimos muito sobre gênero e papeis arcaicos femininos e masculinos, e, no entanto, a realidade continua devastadora, e parece que há uma retomada conservadora em diversas partes do mundo. Ao funcionar como espelho, a arte pode nos ajudar a iluminar alguns cantos escuros.

 

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