Contradições do humano

“Memórias de um cão”, espetáculo do Coletivo Alfenim, da Paraíba, abre a 18ª edição do Festival Recife do Teatro Nacional

Paulo Câmara Paulo Câmara  - Foto: Divulgação

 

Desde a sua criação, em 2007, o Coletivo Alfenim prioriza a abordagem de assuntos brasileiros em suas produções. Foi essa proposta que encaminhou o grupo teatral paraibano até a obra literária de Machado de Assis. Inspirados em “Quincas Borba”, romance publicado pelo escritor entre 1886 e 1892, os artistas conceberam o espetáculo “Memórias de um cão”, que sobe ao palco do Teatro de Santa Isabel, neste sábado (19), às 20h, abrindo a programação de peças do 18º Festival Recife do Teatro Nacional (FRTN).
“Para entender o momento que estamos vivendo no País atualmente, precisávamos de um bom entendedor do processo de formação do sujeito brasileiro. Nesse sentido, não havia autor melhor do que Machado. Percebemos que, a partir do texto dele, poderíamos criar elementos para a construção da nossa dramaturgia, que faz uma análise das contradições da nossa sociedade”, explica o diretor e dramaturgo da companhia, Márcio Marciano. No elenco, estão sete atores, entre eles Zezita Matos, experiente no cinema e no teatro, que recentemente participou da novela “Velho Chico”.
A encenação é centrada no “humanitismo”, corrente filosófica criada e defendida pelo personagem título do livro e que pode ser resumida com a máxima “ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”. “Achamos que havia um paralelo entre essa doutrina ficcional e a retórica que envolve o entendimento de algumas pessoas sobre o que se passa no Brasil hoje. Machado construiu essa filosofia meio surreal através de paradoxos e incongruências, misturando liberalismo econômico, determinismo darwiniano e outras correntes de pensamento vigentes”, diz o encenador.
No centro da trama, está o professor primário Rubião, que vive em Barbacena, Minas Gerais. Às vésperas da abolição da escravatura, ele herda a fortuna do escravocrata Quincas Borba e se muda para o Rio de Janeiro. De acordo com o testamento, para receber o dinheiro, o herdeiro precisa aceitar a condição de cuidar do cachorro de seu benfeitor, que tem o mesmo nome do falecido. “O título da peça vem desse recorte. É interessante observar essa trajetória a partir do cão. Não à toa, é ele quem possui o olhar mais humanizado que existe, já que todos os outros personagens são variantes do mesmo processo de dominação e barbárie”, afirma.
Serviram de referência para a montagem outros trabalhos de Machado de Assis, como contos, crônicas relacionadas à política e o romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, que apresenta os conceitos do “humanitismo” e o próprio Quincas. “Aquilo que o autor esboça como doutrina em um livro, ele expõe de maneira prática no outro. Aos poucos, Rubião vai sentindo na pele as teorias do amigo, até ser totalmente destruído”, adianta.

Musical circense
Outro destaque da programação deste primeiro final de semana do 18º FRTN é a estreia da mais nova produção do grupo pernambucano Dispersos Cia de Teatro. “Severinos, Virgulinos e Vitalinos” narra a trajetória de dois filhos de artistas, que partem para o Sertão em busca dos seus pais e acabam encontrando a morte (Severina), a violência (Virgulino) e o sonho (Vitalino).
O texto e a direção do espetáculo, que une circo, teatro e música, são assinados por Samuel Santos, do grupo O Poste: Soluções Luminosas. A peça terá duas sessões no Teatro Apolo, amanhã e nesta segunda-feira, às 19h. Já a direção musical fica por conta de Leila Chaves e Victor Chitunda. A trilha sonora é executada ao vivo pelo elenco.
Também integra a lista de atrações do festival “Haru - A primavera do aprendiz”, com Rapha Santacruz e Sóstenes Vidal. A montagem, que mistura números de ilusionismo e encenação, tem como mote principal o encontro de um jovem mágico com um mestre sábio. A apresentação ocorre amanhã, às 16h30, no Teatro Barreto Júnior. No mesmo dia, “Ossos”, do Coletivo Angu, sobe ao palco do Teatro Hermilo Borba Filho, às 19h.

Baseado no romance de Marcelino Freire, a peça mostra a saga de um dramaturgo de volta às origens.

 

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