Contradições nossas de cada dia

Publicitário Joca Souza Leão lança o livro “Crônicas e 50 histórias miúdas”, editado pela Cepe, às 19h, no Museu do Estado

Mendonça Filho (DEM)Mendonça Filho (DEM) - Foto: Divulgação

 

Joca Souza Leão bem lembra, com uma frase de Machado de Assis, que “o cronista é um escriba de coisas miúdas”. São essas coisas, aquelas pequenas que acontecem diariamente, ocasionalmente, inoportunamente, na política, no cotidiano, dentro de casa. “Como a nossa crônica é escrita em primeira pessoa, tá tudo aberto.

A vida do cronista é um livro aberto”, comenta o escritor que autografa “Crônicas e 50 histórias miúdas”, nesta terça-feira (8), às 19h, no Museu do Estado. O título, que congrega textos publicados entre 2009 e 2016, é editado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).

As crônicas de Joca Souza Leão trazem muito de política, do nosso momento político, e ele diz que o País deu “uma tremenda guinada à direita”. “Eu nunca fui nem sou um petista ou um saudosista do que poderia ter sido o PT (Partido dos Trabalhadores). O que me incomoda é dizerem que os ladrões estão todos de um lado só. Oras, José Serra é denunciado e as investigações não caminham, o que se faz é um ‘não se fala mais nisso’. Criaram o ‘daqui pra frente’.

Não se fala mais em caixa dois, mas era crime até um dia desses. E veja só o túnel conservador em que estamos, discutindo reforma do Ensino Médio por Medida Provisória! É inaceitável! É uma panaceia”, descamba a falar, num raciocínio rápido, como se redigisse uma de suas crônicas.

Entrevistar Joca é ter um leque de temáticas, e a seguinte foi: qual o Recife, hoje, que só existe na sua memória (por causa das recorrentes demolições, descaracterização que também tematiza muitas das crônicas)? Joca ri. “Se você imaginar que onde hoje é a avenida Dantas Barreto, do trecho que vai da final da avenida Guararapes até a Sergio Loreto, havia mais de 400 sobrados coloniais que foram demolidos. Ruas inteiras desapareceram, o Pátio do Carmo, hoje, é só uma parte. A rua da Aurora, onde você tinha uma extensão de casarios, de uma ponta a outra, hoje só se vê fragmentos. É uma cidade desfigurada”, narra, ajudando a passar um filme na memória.

Fala também da morte. Concorda com o poeta Carlos Drummond de Andrade, que certo dia chegou a pedir à sua cardiologista que lhe receitasse um infarto fulminante para as dores que sentia (a morte da folha, Julieta). “Só um poeta para fazer um pedido desses, não é? Mas melhor mesmo é a morte súbita, porque dizem que o infarto tem uma dor aguda, embora rápida. Mas eu não tenho pressa nenhuma. Fiz até alguns protestos, dizendo que só morreria quando houvesse forno crematório por aqui, mas já há. É bom, mas ele lá e eu cá“, diverte-se.

Além de escritor, Joca Souza Leão é também publicitário e autor de “Pano Rápido” (2011) e “Crônicas” (2013). Em “Crônicas e 50 histórias miúdas”, é impossível discordar do que diz, no prefácio do livro, o também escritor e jornalista Homero Fonseca: é impossível ler sem dar gargalhadas. Textos leves, divertidos e inteligentes, como toda boa crônica deve ser.

A crônica
“Essas crônicas que a gente conhece são essencialmente brasileiras. Vários autores a dizem como um gênero brasileiro e quem produzia com extrema qualidade era Machado de Assis. Sim, a crônica existe desde os séculos 16 e 17, na França, mas da forma como é feita, bem-humorada, foi iniciativa de Machado”, diz Joca Souza Leão, emendando que o estilo está firme nas obras de José de Alencar (“que era escritor romântico, mas escrevendo crônicas, era extremamente descontraído”) e Olavo Bilac (simbolista, mas que também se encontrou na crônica). A lista dos que merecem seu destaque tem ainda os nomes de Rubem Braga (as bases da crônica brasileira), dos pernambucanos Antonio Maria, Nelson Rodrigues, Carlos Pena Filho, Anibal Fernandes e Mario Melo, e os jovens Antonio Prata e Gregório Duvivier.

Serviço >
Lançamento de “Crônicas e 50 histórias miúdas”, de Joca Souza Leão
Onde: Museu do Estado de Pernambuco (av. RuiBarbosa, 960, Graças)
Quando: Hoje, às 19h
Editora: Cepe. Páginas: 208
Preço médio: R$ 50

 

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