Crítica: 'A Máfia dos Tigres' é o escapismo ideal para a atual quarentena

A série documental tem sete episódios, de mais ou menos uma hora cada um, que a Netflix botou no ar

A máfia dos tigresA máfia dos tigres - Foto: Reprodução/Divulgação

O título em inglês é "Tiger King", que significa "rei dos tigres" em português e se refere ao apelido dado a si mesmo pelo personagem principal, que também se apresenta com outro codinome, Joe Exotic.

O nome verdadeiro dele é Joseph Allen Schreibvogel, ou Joseph Maldonado-Passage depois que adotou o sobrenome de dois dos maridos que teve ao longo da vida, sendo que dois deles ao mesmo tempo.

Parece estranho? Pois essa é só a primeira esquisitice da série documental de sete episódios, de mais ou menos uma hora cada um, que a Netflix botou no ar no mês passado e que capturou a atenção das pessoas nos Estados Unidos (a colunista Maureen Dowd, do jornal The New York Times, definiu o programa como "a recreação favorita dos EUA"), além de começar a tomar o mundo, à la "Wild Wild Country" há dois anos.

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Assim como a história do líder religioso Osho, esta também teve implicações na vida real. Desde o lançamento, pelo menos duas investigações foram reabertas pelo FBI com novas provas. Você já deve ter visto uma foto de Joe Exotic, um homem magro, com apreço por camisas escandalosas enfiadas dentro de calças jeans muito apertadas na cintura, uma franjinha e a parte de trás do cabelo mais comprida e um bigodão castanho que desce da parte superior dos lábios até quase o queixo.

Ele aparece quase sempre abraçado a um tigre e com uma arma na cintura. Pode também ser visto todo de couro preto em cima de um carro tocando um violão e cantando uma música country chamada "I Saw a Tiger", supostamente escrita por ele. Supostamente, pois quase nada é exatamente o que parece nesse programa.
Exotic é o protagonista desta série sobre criadores de grandes felinos nos Estados Unidos, que tem também uma protetora de animais em pé de guerra com eles, principalmente com Exotic, além dos funcionários dos zoológicos, os maridos e mulheres dos criadores, os sócios e um produtor de um reality show.

No final do primeiro episódio, em que o zoológico de Exotic em Oklahoma é apresentado, ficamos sabendo que ele foi preso, acusado de ter mandado matar sua maior inimiga, Carole Baskin, a autoproclamada protetora de tigres, leões, panteras, chitas e outros felinos.

É tudo absolutamente bizarro, estranhamente viciante e totalmente cativante. Não dá para parar de assistir, a trama parece não parar nunca de se desenrolar e se tornar cada vez mais extraordinária.

Joe Exotic pode ser o protagonista, mas essa história vale a pena ser vista por qualquer outro ângulo. Tem suspeita de assassinato, um ex-traficante de cocaína, poligamia, um braço devorado por um tigre, suicídio e investigação do FBI. Mas pode ter mais um elemento nesse mix que fez de "A Máfia dos Tigres" a série do momento. E ele é a esquisitice que tomou conta das nossas vidas.

Você pode estar trancafiado em casa tentando trabalhar enquanto entretém os filhos nos intervalos entre uma e outra tarefa doméstica. Ou sozinho e sem nada para fazer a não ser esperar o tempo passar, longe de tudo e de todos, atordoado pelas notícias.

Está tudo muito anormal. Mas nem de longe tão inusitado quanto as vidas de Joe Exotic, o dublê de guru espiritual e dono de zoológico Bhagavan Doc Antle, de sua rival Carole Baskin e de muitos outros personagens secundários.

Você provavelmente nunca vai ver outro documentário com tantas roupas e cortes de cabelo tão mal resolvidos. E com tantos dentes da frente faltando também, por causa de abuso de drogas. E malucos em geral. O mesmo mix de elementos que faz "A Máfia dos Tigres" ser difícil de ser defendido faz com que seja irresistível.
Talvez seja um pouco de "Schadenfreude", a palavra emprestada do alemão que significa o sentimento de satisfação pelo infortúnio alheio. Mas isso só explica uma parte do apelo. A outra é que a série é bem feita.

A edição minuciosa vai revelando uma extravagância por episódio, de maneira que você não se sente inundado de informações, tem tempo de digerir uma por vez. E tem a trama de suspense como pano de fundo o tempo inteiro. Joe Exotic foi preso. Mandou matar sua inimiga? Conseguiu? Na verdade, deixa o Osho e seu "Wild Wild Country" no chinelo.

Um conselho? Assista aos poucos. Quando os sete episódios acabam, o confinamento que estamos enfrentando volta a ser o personagem central das nossas vidas, e sem "A Máfia dos Tigres" isso pode ser sufocante.

A MÁFIA DOS TIGRES
Avaliação: muito bom
Quando: Disponível na Netflix
Direção: Eric Goode e Rebecca Chaiklin

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