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Crítica: 'Blues for Lady Day' é biografia emocional de Billie Holiday

Assinada pelo quadrinista Paolo Parisi, 'Blues for Lady Day - A história de Billie Holiday', da editora Veneta, revela eventos importantes na vida da cantora

Cena do quadrinho 'Blues for Lady Day - A história de Billie Holiday', de Paolo Parisi Cena do quadrinho 'Blues for Lady Day - A história de Billie Holiday', de Paolo Parisi  - Foto: Divulgação

Com o tempo, alguns artistas se tornam maiores do que a vida: transformam-se em lendas, as fronteiras de suas histórias são alargadas por feitos que deixam como legado uma rica produção cultural. Nessa lista de artistas certamente estaria o nome de Billie Holiday (1915-1959), cantora de jazz norte-americana. É sobre ela que o quadrinista italiano Paolo Parisi fala em "Blues for Lady Day - A história de Billie Holiday", lançado pela editora Veneta.

A história de Lady Day, como era conhecida, é narrada de forma livre e fragmentada, passando de forma espontânea por diferentes pontos da carreira - os altos, como sua turnê pela Europa e seus amores, e os muito baixos, como o vício e a prisão. As imagens parecem versos improvisados: cenas que visitam diferentes momentos de grande impacto, vistas pela perspectiva não de um mito, mas de alguém fragilizado por sua dependência química, problemas familiares, preconceitos.

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A HQ contextualiza um pouco o período, falando sobre a sociedade norte-americana da primeira metade do século 20, o racismo, o blues, a vida no Harlem. As informações surgem como peças fragmentadas que aos poucos são aproximadas e criam sentidos. As falas alternam: um narrador, alguém que conheceu a cantora, a própria Billie Holiday, em relatos escritos para Lester Young, músico importante na vida de Holiday.

A certa altura, talvez no trecho mais potente da HQ, ao falar sobre linchamento de negros entre 1880 e 1950, com métodos variados de tortura, o autor insere uma sequência de quadros alternando Billie Holiday cantando "Strange Fruit" e corpos enforcados, acompanhados das letras "sangue nas folhas e sobre as raízes", "corpos negros balançam na brisa meridional", "um fruto estranho pende dos álamos", "uma cena pastoral do valoroso sul", "os olhos esbugalhados e as bocas tortas", "perfume de magnólias, doce e fresco", "e, de repente, o cheiro de carne queimada".

A letra foi escrita como um poema, por Abel Meeropol, professor e ativista do partido comunista dos Estados Unidos. "Na primeira vez que apresentamos a canção ao vivo, as pessoas da plateia, em sua maioria branca, emudeceram", diz o texto, repassando o testemunho da cantora.

Os desenhos seguem o estilo fluido da narrativa: assim como as informações apresentadas em texto não possuem um rigoroso detalhamento biográfico, sendo mais sentimental do que propriamente informativo, as imagens sugerem uma proposta que tende ao impressionismo: vemos, na maior parte das páginas, apenas vultos, rostos e paisagens sem definição, mas com uma elevada carga emotiva. Os sentimentos vêm dessa combinação interessante entre texto e imagem, ressignificados pela maneira como evitam os clichês tradicionais do gênero biografia.

Autor de "Coltrane" (lançado pela Veneta em 2016), biografia em quadrinhos de John Coltrane, jazzista e compositor norte-americano, Paolo Parisi parece se especializar nesses relatos breves e potentes sobre ícones da cultura do jazz, misturando textos curtos, que na brevidade parecem conter grande força sentimental, e imagens que sugerem a grandiosidade dos biografados.

Cotação: bom

Serviço:
"Blues for Lady Day - A história de Billie Holiday", de Paolo Parisi
Editora Veneta, 112 páginas
Preço médio: R$ 54,90

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