Crítica: 'Cara Gente Branca' segue potente em sua segunda temporada

Nos novos episódios, a série 'Cara Gente Branca' desenvolve melhor as narrativas dos seus personagens, além de trazer participações especiais

As atrizes Ashley Blaine Featherson (Joelle Brooks), Logan Browning (Samantha White) e Antoinette Robertson (Coco Conners) em cena de "Cara Gente Branca"As atrizes Ashley Blaine Featherson (Joelle Brooks), Logan Browning (Samantha White) e Antoinette Robertson (Coco Conners) em cena de "Cara Gente Branca" - Foto: Divulgação/Netflix

Sendo homem e branco, é arriscado avaliar uma produção audiovisual como "Cara Gente Branca" ("Dear White People", no título original), que chegou a sua segunda temporada na sexta-feira (4), pela Netflix. As chances de dizer alguma besteira são enormes. Em uma série estrelada majoritariamente por atores negros, aqui não cabe espaço para dilemas de vidas brancas, ou na gíria da internet, "white people problems". Porém, ao mesmo tempo que se aprofunda e explica que vivências negras são plurais e densas - o contrário do que representações nas mídias mostram -, merecidamente aponta o dedo na cara da "branquitude", em tempos de internet, e elenca os mais diferentes privilégios que estas pessoas carregam e não se dão conta.

"Cara Gente Branca" causou comoção antes mesmo do lançamento de sua primeira temporada, em abril de 2017. Diversas pessoas - brancas - alegaram que a série estaria promovendo uma espécie de "racismo reverso". E aqui entra o tópico sobre privilégios: é difícil ser posto contra a parede, ter ideias e conceitos sustentados por décadas sobre determinado tema, e estes estarem errados. É completamente injusto afirmar que a série estaria realizando "racismo reverso", só porque decide contar uma história através de outros ângulos ainda não explorados completamente pela TV ou cinema. Ainda é desconfortável para brancos serem reduzidos a "brancos" - mesmo que ainda sob o suave direcionamento da frase "cara gente branca" - enquanto negros precisam lidar com esse fato diariamente.

A segunda temporada se inicia duas semanas após os eventos do final da temporada anterior, com os alunos da ficcional Winchester University tendo que lidar com ameças de "cyberbullying" e a iminente palestra da jornalista de direita Rikki Carter - interpretada pela atriz Tessa Thompson, que protagonizou a versão para o cinema da série, em 2014.

A temporada também desenvolve um mistério acerca das formações de sociedades secretas dentro da universidade. A série então desperdiça muito tempo nessa trama, embora ela sirva como fio condutor de algumas narrativas de um ou dois personagens, como Samatha White e Lionel Higgins. Não surte o efeito desejado - a de envolver o telespectador em um suspense - e desperta desinteresse em boa parte do tempo. Em seus 30 minutos por episódio e uma temporada com 10, "Cara Gente Branca" não pode ousar em gastar tempo com linhas narrativas que excedam os limites desse tempo, já lotado de personagens interessantíssimos.

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Nesta temporada, "Cara Gente Branca" desenvolve ainda mais os dramas dos alunos: Samantha segue sendo confrontada por causa do seu programa de rádio, além da sua origem "mestiça", por ter um pai branco e uma mãe negra. Reggie Green ainda precisa lidar com o trauma sofrido na temporada passada. Troy Fairbanks, filho do reitor, busca compreender sua identidade e propósito, este último moldado ao gosto do pai. Lionel segue lidando com a realidade de ser um menino negro e gay, e o que essa situação implica na sua vivência, dentro e fora da militância.

Melhor amiga de Sam, Joelle Brooks ganha mais espaço, com episódio próprio, focando na rejeição e machismo que uma mulher negra sofre. Coco Conners segue como uma das melhores personagens da série, se firmando como presidente de um dos braços do movimento negro dentro da Winchester, ao mesmo tempo que precisa lidar com uma gravidez indesejada.



Além da Tessa Thompson, "Cara Gente Branca" também recebe a participação especial de Tyler James Williams - conhecido no Brasil por ter estrelado a série "Todo Mundo Odeia o Chris" - interpretando o ativista Carson Rhodes, que é a contrapartida da Rikki Carter. Tendo satirizado a série "Scandal" na temporada anterior - com a engraçada "Infamation" - "Cara Gente Branca" volta agora com "Prince O'Pal-ities", debochando da série "Empire" e que estrelada pela atriz e roteirista Lena Waithe. Enquanto a história da temporada se desenvolve através dos diálogos, essas sátiras - exibidas em uma TV enquanto os personagens conversam - lançam a reflexão de como negros são representados na TV estadunidense.

Embora com algumas decisões ousadas na narrativa, "Cara Gente Branca" segue como um ótimo show. Ao desenvolver representatividade negra em uma plataforma que, mesmo na dianteira em comparação a outras emissoras, precisa ainda ter cuidado com o emprego de minorias políticas em sua grade de programação. Colocando a direção, produção e roteiro nas mãos de pessoas negras, a Netflix tenta endossar o coro de que, sim, vidas negras importam. E pessoas brancas precisam saber disso, o mais breve possível.

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