Crítica: “Grey’s Anatomy” aponta falhas no sistema de saúde e reflete cenário atual

Série médica é transmitida no Brasil pela Sony Channel

16ª temporada de 'Grey's Anatomy' tem foco em crise do sistema de saúde16ª temporada de 'Grey's Anatomy' tem foco em crise do sistema de saúde - Foto: Reprodução

Atenção: Esta coluna contém spoilers da 16ª temporada de “Grey’s Anatomy”

É de se imaginar que 15 anos de exibição possa diminuir o ritmo ou esgotar os temas e histórias desenvolvidas em “Grey’s Anatomy”. Há quem acredite que a trama colheu bons frutos, mas esteja postergando seu fim. Outro dia, ouvi alguém dizer que o seriado fala apenas sobre os relacionamentos inapropriados dos médicos de um hospital. Pode ter sido verdade lá em 2005, mas o amadurecimento ao longo dos anos acompanha a atualidade quando, por exemplo, opta por trazer críticas à assistência médica americana apontando o sistema como falido. Qualquer semelhança...

O último episódio da 15ª temporada surpreendeu os telespectadores ao mostrar a dona do hospital, Catherine Avery, e a chefe de cirurgia, Miranda Bailey, demitindo de uma única vez Meredith Grey, Richard Webber e Alex Karev. A decisão aconteceu após a protagonista (acobertada por Karev e Webber), trocar o nome de uma criança admitida pelo de sua filha, Ellis, com o objetivo de que a paciente pudesse ter acesso às regalias do seu plano de saúde, mas que não conseguiria por conta de seu status de imigração.

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Sendo concluída mais cedo por conta da pandemia da COVID-19, a 16ª temporada começa revelando que Meredith não foi só demitida, como processada e condenada a serviços comunitários. Enquanto isso, o destino de sua licença médica fica pendente, correndo o risco de que ela não possa mais praticar medicina. Bom, “cutucar” a realidade do sistema de saúde americano não é uma novidade em “Grey’s Anatomy”. Na temporada 15, um paciente não quis fazer uma cirurgia pulmonar porque seu plano não cobria. O caso foi resolvido e o jovem conseguiu ser operado por causa de um “jeitinho” dado pelos médicos, a solução não veio do seguro.

Anos atrás, na sétima temporada, a cirurgiã Teddy Altman resolve se casar com um paciente apenas para que ele pudesse dividir o benefício do seguro e, assim, poder tratar de um tumor que o mataria sem o devido tratamento. O que mudou desde esses pequenos dribles para o caso de Grey?

Agora a série desafia todo setor de saúde, colocando a protagonista questionando o problema pela raíz. Incentivada por vários exemplos de injustiça que passa a perceber em sua supervisão comunitária, Meredith chega a escrever um artigo ácido tocando em pontos como o fato de que “na América, os ricos vivem 10 a 15 anos mais que o pobre” e que “a saúde nos Estados Unidos dedica seu tempo para aqueles que podem pagar”. Mas como conseguir seu emprego de volta indo contra seu hospital, sem desistir de suas convicções? Esse é um dos grandes embates da nova temporada.

E é nesse ponto que “Grey’s Anatomy” se torna necessária ou, no mínimo, bem-vinda na grade televisiva. Em tempos de corona, questões sobre o sistema de saúde podem ser tiradas da tela para pautas brasileiras também. Todos podem ficar em casa e cuidar da higiene? A população carente pode baixar um aplicativo e pedir auxílio emergencial?

“Grey’s” está bem longe de ser aquela novelinha sobre patrão que não pode sair com a subordinada. Há novos romances, há perdas significativas, sim. Mas a série – e seus personagens – amadurece bem durante os anos, se tornando cada vez mais política. A ‘garota em um bar’, hoje, sabe de seu privilégio, mas usa sua posição para melhorar a vida de outras pessoas. Trabalhando histórias individuais para alcançar uma quebra do sistema que é muito maior do que todos eles. Em um ano de pandemia e eleição, “Grey’s Anatomy” nunca foi tão apropriado.



"Grey's Anatomy" é exibida no Brasil pelo canal Sony. As 15 temporadas também podem ser vistas no catálogo da Netflix.

*Fernando começou a assistir a séries de TV e streaming em 2009 e nunca mais parou. Atualmente ele já maratonou mais de 300 produções, totalizando aproximadamente 7 mil episódios. A série mais assistida - a favorita - é 'Grey's Anatomy', à qual ele reassiste com qualquer pessoa que esteja disposta a começar uma maratona. Acesse o Portal, Podcast e redes sociais do Uma Série de Coisas neste link.

*A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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