Crítica: Maternidade sem romantismo em 'Tully'

Filme traz a ótima interpretação da atriz Charlize Théron no papel de uma mulher que procura se redescobrir para além da maternidade

Marlo (Charlize Théron) tenta reencontrar a si mesma Marlo (Charlize Théron) tenta reencontrar a si mesma  - Foto: Divulgação

“Se você olhar de perto, estamos cobertas de corretivo”. É focando nesse olhar mais atento, mais permeado de rachaduras que de nenhuma forma tornam a planície menos bela, que “Tully” se ergue. Construído e permeado pela honestidade, o filme se desenvolve a partir de uma visão crua da vida adulta e de maternidade. Busca, através da imperfeição, trazer um retrato fiel, não romantizado, desses dois elementos.

O longa acompanha Marlo, interpretada pela sublime Charlize Théron, mãe de dois filhos e grávida de um terceiro. Sufocada pelo peso das tarefas domésticas, por um marido inútil e pela realidade de cuidar de um filho com um tipo não identificado de deficiência mental.  Inicialmente receosa, ela acaba aceitando o conselho do seu irmão ao contratar uma babá noturna.

É aí que conhece Tully (Mackenzie Davis), o que acaba mudando sua rotina e, consequentemente, sua vida — Marlo se torna mais leve, conseguindo lidar melhor com as responsabilidades.

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É especialmente notável como “Tully” faz questão de enfatizar que Marlo é muito mais do que a fase materna pela qual passa. Diversas vezes, inclusive, traz cenas que provocam o telespectador a refletir sobre como a mulher grávida é tratada como propriedade do mundo, com estranhos dando opiniões não requisitadas ou a julgando por não tratar a gravidez com a prioridade que julgam necessária.

Isso tudo contrasta bastante com a visão que temos de Marlo, uma mulher exausta, estressada e completamente sozinha, que não encontra nem no marido uma companhia para sua luta diária.

Tullysurpreende. É um filme honesto, harmonioso e sensível, que traz uma reflexão poderosa sobre autoconhecimento. É uma produção que começa falando sobre maternidade moderna e perpassa companheirismo, mas acaba sendo ainda mais inteligente e profundo do que se espera.

Atuações e química

A completa entrega de Théron a seu papel é impossível de não notar. Em tela, a atriz sul-africana brilha pela crueza de sua atuação. Saber que ela teve depressão, chegando a engordar 23 kg para viver sua personagem, só adiciona mais vivacidade a sua primorosa performance. Contracenando com a também ótima Davis, as duas criam uma dualidade entre a juventude de liberdade e a vida adulta de concessões.

A química do par é exemplar, fluindo e crescendo ao longo do longa com ajuda do roteiro de Diablo Cody e da direção de Jason Reitman, que, juntos, provocam o público a cada instante — à crítica, à reflexão, à identificação.

Cotação: Ótimo


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