Crítica: 'Pantera Negra' representa momento simbólico no cinema

Além de trazer um super-herói negro, o filme traça uma narrativa sobre raça e resistência

Chadwick Boseman interpreta o protagonista T'ChallaChadwick Boseman interpreta o protagonista T'Challa - Foto: Disney/Buena Vista/Divulgação

É difícil escrever sobre um filme que tão claramente veio determinado a romper barreiras, e “Pantera Negra” vem recheado de um discurso poderoso. Para começar, é o primeiro blockbuster sobre um super-herói negro, trazendo consigo a responsabilidade de entregar uma produção que fosse para além do comum.

Afinal, sabemos que os holofotes estão em cima do filme e qualquer erro podia ser crítico, em uma sociedade minuciosa — e com raízes racistas — que logo apontaria um dedo por demais acusatório em qualquer defeito. Felizmente, a estreia da semana não dá margem para reclamações: vem com enredo amarrado, narrativa coesa e personagens fortes.

Pois bem, quem assistiu a “Capitão América: Guerra Civil” já conhece T’Challa (Chadwick Boseman), protagonista carismático que se vê subindo ao trono de Wakanda após a morte do seu pai. Uma responsabilidade que já seria grande nos quesitos normais da monarquia, mas que se torna extraordinária no país africano que possui tecnologias para além do imaginável e que passa o manto de Pantera Negra a todos os soberanos. Wakanda se esconde das outras civilizações ao se passar por um país de terceiro mundo, de pastoril e montanhas, a fim de proteger o povo de ameaças externas e resguardar seu precioso mineral, vibranium.



O enredo não gira em torno de T’Challa, contudo. Constrói-se em uma narrativa sobre responsabilidade com os outros povos (principalmente negros) que habitam o resto do globo, que não usufruem da inteligência e tecnologia que emana de Wakanda e seguem oprimidos.

O antagonista, Erik Killmonger (Michael B. Jordan), um afro-americano, vem cheio de nuances e discussões sobre injustiças raciais e sociais, disposto de tudo a dar aos oprimidos a força do opressor — mesmo que isso signifique destronar T’Challa. É um enredo - e uma discussão, — que possibilita entender todos os lados. No fim, não há um verdadeiro vilão no filme, todos lutam por aquilo que acreditam e seus argumentos e motivações são críveis, emocionantes e reais.

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"Pantera Negra" em nenhum momento parece forçado. A narrativa se mescla perfeitamente a seu belo visual, com momentos que a fotografia coordenada por Rachel Morrison é bem-feita e harmônica, seja em belas cenas no plano astral e em Wakanda ou nas cenas de luta atentas e graciosas.

Wakanda, em si, é quase que a definição de equilíbrio, na medida em que une a ancestralidade de tribos e rituais africanos ao moderno tecnológico em uma incrível estética afro-futurista. Traz também um poder através da igualdade de gênero — o exército real wakandano é composto por mulheres, incluindo a grande general Okoye (Danai Gurira); a princesa Shuri (Letitia Wright), de apenas 16 anos, é a responsável pela manutenção da tecnologia; Nakia (Lupita Nyong'o), par romântico de T'Challa, se aventura pelo continente para ajudar os mais pobres.

Repercussão

A importância, enfim, de um filme sobre história, raça, humanidade e geopolítica vem sendo sentida desde a aparição do personagem Pantera Negra no filme "Capitão América: Guerra Civil". Surgiram na web as reações de felicidade de crianças negras ao se identificar com os personagens.

Assim, como agora, com a estreia, é notada na emoção de grupos, como a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, que se juntam para prestigiar uma produção em que os negros são protagonistas e super-heróis. É, com certeza, uma produção que não passará despercebida pela história cinematográfica.

Cotação: Ótimo

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