Crítica: 'Querida Mamãe' e o cru retrato do amor em muitas escalas

Filme nacional discute relações familiares e amorosas na medida em que personagem se envolve com outra mulher

Selma Egrei e Letícia Sabatella interpretam mãe e filha que lutam para se entender Selma Egrei e Letícia Sabatella interpretam mãe e filha que lutam para se entender  - Foto: Divulgação

Três elementos permeiam “Querida Mamãe”, filme que adapta a peça homônima de Maria Adelaide Amaral e tem sessão nesta quarta-feira (16) no Cinemark RioMar: a incompreensão, a agressividade e o diálogo. Focado no relacionamento entre Heloísa (Letícia Sabatella) e sua mãe, Ruth (Selma Egrei), o longa abusa do cru para explorar seu drama, apostando em uma fotografia que puxa para o cinema independente, permitindo a seu elenco atuar sem qualquer maquiagem e entoando as cenas com trilhas sonoras como "Fim de Caso", de Nana Caymmi.

O clima melancólico que perpassa "Querida Mamãe" funciona bem com sua história: em destaque há Heloísa, personagem que, acreditando não possuir “vocação para ser feliz”, leva uma rotina de infelicidade no trabalho, no casamento e em suas relações com sua filha, Priscila (Bruna Carvalho), e sua mãe. Perdida, infeliz e sem autoestima, Heloísa é impaciente, acabando por culpar os outros por sua insatisfação com a própria vida. Cobra insistentemente da mãe, por exemplo, que esta goste dela como gosta de sua irmã mais velha.

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É de repente que conhece Leda (Cláudia Missura), artista plástica que lhe encanta e seduz. A partir daí, Heloísa se torna mais feliz, não conseguindo parar de falar da nova paixão. É quando começam a surgir os diálogos mais interessantes do filme, protagonizados por Heloísa e sua mãe: de um lado, a filha que quer compartilhar o motivo de seu bem-estar; do outro, a mãe que não aprova, quer evitar tal conversa e se faz de desentendida.

Se agarrando desesperadamente ao feixe de felicidade que encontrou, falta tato a Heloísa para lidar com a negação de sua mãe e sua filha. A incompreensão das duas lhe pega de sobressalto, levando-a a tornar-se agressiva (um traço recorrente nos personagens deste filme, inclusive) e desesperada.



Seu namoro, contudo, é apenas uma forma de “Querida Mamãe” explorar a relação entre avó, mãe e filha, tumultuada e cheia de incertezas. Os embates pontuados por longos diálogos não escondem a veia teatral do filme, que se desenvolve a partir de boas atuações de seu elenco. Sabatella e Egrei se entregam às personagens, com uma química natural, e a jovem Bruna Carvalho também não faz feio ao mostrar apego com a vó e desgosto com a mãe, apesar da personagem ser a mais apagada do trio.

   Representação racial

Há de ser criticado, entretanto, o papel da única personagem negra em "Querida Mamãe": ser empregada de Ruth e ouvir chacota. É discutível que a personagem tenha sido mantida para reafirmar o lado agressivo de Heloísa, mas, em um roteiro que já explora esse traço de sua personalidade com os outros personagens, o papel da empregada se torna indeterminado e desnecessário, acabando por contribuir apenas negativamente (tanto em questão de representação quanto para o próprio filme, que cria um desconforto com o telespectador ao fazê-lo assistir àquela personagem sendo mal tratada repetidamente).

Cotação: Bom

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