Entrevista > Tiago Judas (Artista plástico)

Delicado traçado da comédia

“Hídrico” traz quadrinhos inéditos e a história da morte e ressurreição do protagonista

Tiago JudasTiago Judas - Foto: Tiago Judas

 

Gostaria que falasse um pouco sobre a criação desse personagem, em 1998; o que te motivou?
Comecei a desenhar o personagem quando moleque, em busca de fazer algo que eu tanto gostava: quadrinhos. Pura vontade de experimentar essa linguagem que eu tanto consumia. Se não fosse os caras de São Paulo, o Caeto e o Ulisses, que me convidaram pra participar do fanzine “Sociedade Radioativa”, a coisa toda ia acabar na gaveta mofando... Publicar no fanzine me fez obter retorno de um determinado público e consequentemente vontade de desenhar mais.

Como foi a volta a esse personagem hoje em dia?
Na verdade ele é meu único personagem. Nas minhas outras HQs os personagens que crio acabam no último quadro, mas esse insiste em permanecer. Pra mim o livro é uma saga. “Hídrico” é um caderno de notas que me acompanhou durante um longo período. Existem fatos e ficções rabiscados ali. Também é possível notar esse percurso narrativo através do próprio desenho, que sofre alterações visíveis. Eu vejo o livro também como se fosse uma “apresentação ao vivo”, tem muito erro e improviso ali. Fui experimentando meu desenho com diversos materiais, em diversas fases, testando as piadas e até mesmo aprendendo a me relacionar com os editores.

Por que a opção por censurar o nome do protagonista, se ele já é conhecido como Kocinas?
É porque, por mais incrível que possa parecer, a história da família com o mesmo sobrenome é real e eu não quero de forma alguma me envolver com situações judiciais. Quando a senhora, que inclusive aparece no relato da morte do personagem, pediu para eu parar de desenhar o personagem, os olhos dela estavam realmente tristes e preocupados. Eu respeito o pedido deles e não acho grande prejuízo colocar a tarja, na verdade até me diverte.

O que te atrai nesse tipo peculiar de humor de ‘Hídrico’, em que existencialismo e cotidiano aparecem misturados?
Porque mesmo que não queiramos, isso é a condição humana. Temos que escovar os dentes, trocar a lâmpada, almoçar no quilo, ganhar dinheiro suficiente e simultaneamente responder pra nós mesmos “de onde viemos e pra onde vamos?”. Olhar para o mistério que é a vida e conseguir achar graça é uma forma de perceber que não estamos sós nessa caminhada, somos todos muito parecidos pois quando rimos é porque estamos nos entendendo, nossa inteligência está conversando.

 

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