'Deslembro' fala sobre memórias e as descobertas da adolescência

Filme de Flávia de Castro, que estreia nesta quinta-feira, resgata lembranças da diretora, cujos pais foram exilados durante a ditadura

"Deslembro" estreia nesta quinta-feira "Deslembro" estreia nesta quinta-feira  - Foto: Divulgação

"Meu passado/ Não sei quem o viveu./ Se eu mesmo fui,/ Está confusamente deslembrado". Os versos de Fernando Pessoa não só inspiram o título de "Deslembro", mas também adiantam algo sobre o conteúdo do filme. A tentativa de reencontrar a memória perdida é o que conduz o enredo do segundo longa-metragem da diretora Flávia Castro, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira.

A trama acompanha a adolescente Joana (Jeane Boudier), cuja família foi exilada em Paris. Após a aprovação da Lei da Anistia, em 1979, em retorna ao Rio de Janeiro, a contragosto. O reencontro com a terra natal traz de volta lembranças esquecidas do seu pai, Eduardo (Jesuíta Barbosa), militante de esquerda morto durante a ditadura. "Como lembramos? Como funciona nossa capacidade de lembrar na adolescência, quando tudo tende para o futuro, e que a memória emerge e invade o presente?", questiona Flávia, em depoimento presente no material de divulgação do trabalho.

A trajetória da personagem se confunde com a da diretora, que também teve os pais exilados pelo regime militar. Antes de voltar ao Brasil, ela morou com eles na Argentina, no Chile, na Bélgica e na França. Parte dessa história é contada no seu filme anterior, o documentário "Diário de uma busca" (2010). Nele, a cineasta tenta elucidar as circunstâncias da morte do pai, o jornalista Celso Castro, encontrado morto no apartamento de um ex-oficial nazista, em 1984.

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"Foi durante a montagem do documentário, absorta por testemunhos, cartas, diferenças entre as minhas lembranças com as de outros familiares, que surgiu a vontade de ir mais longe em um trabalho sobre a memória. Quando a infância foi uma sucessão de exílios, fugas, luto e lutas, como será, depois disso, esse momento de transição?", atiça. As cenas de flashback, que costuram todo o enredo, retratam o horror vivido em território brasileiro. Em tempos de homenagens a torturadores, o filme serve como um alerta para que não esqueçamos daquilo que não queremos ver se repetindo em nossa história.

Para além do conteúdo político, o filme traz as vivências da adolescência em um Rio de Janeiro no início dos anos 1980. O primeiro amor, a descoberta do sexo e as dificuldades do relacionamento com os pais aproximam o espectador à história de Joana. Tudo isso embalado pelas canções ouvidas pela garota, que vão do rock estrangeiro ao sambinha entoado pelo namorado.



O elenco conta com nomes como Sara Antunes, Hugo Abranches, Arthur Raynaud, Antonio Carrara e Marcio Vito. É com a veterana Eliane Giardini, que interpreta a avó paterna da protagonista, que Jeane Boudier vive algumas das cenas mais bonitas e carregadas de afeto da obra. Falado em português, francês e espanhol, o longa tem produção de Walter Salles e Gisela B. Câmara, além da própria Flavia Castro. A produção participou das seleções oficiais de Veneza e de Havana, e obteve prêmios em vários festivais brasileiros e internacionais.

Cotação
Bom

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