Despedida de William Bonner do "JN" é marcada por emoção, mas também por estratégia
Em uma noite marcada por emoção contida, olhos marejados e reverência explícita, o telejornal mais assistido do país promoveu sua segunda troca de titular em 55 anos de existência
Poucas transições no jornalismo televisivo brasileiro carregaram tanto simbolismo quanto a saída de William Bonner da bancada do “Jornal Nacional”, da Globo, após quase três décadas.
Em uma noite marcada por emoção contida, olhos marejados e reverência explícita, o telejornal mais assistido do país promoveu sua segunda troca de titular em 55 anos de existência: Bonner deixou os cargos de âncora, que ocupava desde 1996, e de editor-chefe, que exercia desde 1999, para abrir espaço a César Tralli, agora ao lado de Renata Vasconcellos na apresentação.
A emissora soube capitalizar a ocasião. A despedida, que contou com audiência expressiva, virou evento midiático, impulsionando campanhas publicitárias e atraindo curiosos para um último boa noite do titular. Ticiane Pinheiro, esposa de Tralli e contratada da concorrente Record, apareceu ao vivo com as filhas na redação lotada do “JN”.
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Entre palmas longas e discursos de afeto, foi um momento cuidadosamente coreografado – mas, ainda assim, genuinamente tocante.
A escolha de Tralli não se deu por acaso. Jornalista com 32 anos de carreira na Globo, o novo titular do “Jornal Nacional” carrega no currículo coberturas emblemáticas, que vão desde o atentado de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, até desastres naturais, conflitos internacionais e eventos esportivos importantes.
A homenagem feita no próprio telejornal à sua trajetória reforçou a mensagem: o “JN” pode ter mudado de voz, mas não de peso. Na verdade, o tempo vem promovendo isso.
Houve época que o telejornal atingia picos acima de 70 pontos de audiência. Na estreia de Tralli, no último dia 3, mesmo com todo alvoroço, rendeu 25,2 pontos de audiência na Grande São Paulo – superou os 24 pontos da edição de despedida de Bonner.
Tralli estreia com uma reputação de ser confiável para a emissora e encara o desafio de manter a relevância do jornalístico em que atuou como repórter e, agora, herda como âncora.
Mais que uma simples troca de apresentadores, a reformulação também afetou a estrutura de comando. A jornalista Cristiana Sousa Cruz, que dividia a editoria chefe com Bonner nos últimos seis anos, já preparando a saída do apresentador, assume agora inteiramente a liderança editorial. A mudança marca, na verdade, a continuidade de um modelo de jornalismo adotado desde sempre pela emissora.
“Jornal Nacional” – Segunda a sábado, 20h30, na Globo.

