Livro

"Diário da Tranca": a escrita como possibilidade de transformação pela arte

Livro escrito por socieducandos da Funase-PE, (re)direciona presente e futuro de adolescentes

"Diario da Tranca" também teve capas confeccionadas pelos adolescentes"Diario da Tranca" também teve capas confeccionadas pelos adolescentes - Foto: Kaian Alves

Pouco mais de sete meses como interno da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase-PE), na unidade de Arcoverde, no Sertão. Período suficiente para, entre outros aprendizados, findar a leitura de dois livros: “As Crônicas de Nárnia” e “O Senhor dos Anéis”.

“Estou lendo de novo (As Crônicas). Tem a história que fala sobre crianças que vão para outra dimensão só porque colocam um anel de ouro no dedo, eu gostei disso. (...) Acho que vou ler muitos livros ainda”. O relato é de José*, 17 anos, que “em plena quarta-feira, depois de uma ducha, corria para a biblioteca”. “É lá onde tudo começa, onde eu posso ler, ficar em paz, onde fico no sossego sem ter que ser quem eu não sou”.

 

Crédito: Kaian Alves



Assim como ele, outros 17 socioeducandos da instituição - entre outubro de 2020 e julho de 2021 – foram tomados pelo gosto da leitura e da escrita, e passaram a escrever sobre suas memórias em formato de diário, realidades que foram compiladas no livro “Diario da Tranca” (Mariposa Cartonera e Cartonera Eestelar). 

Gatilho para o bem
Idealizado pela pedagoga da instituição, Jedivam Conceição, o intuito de transpor as grades do cárcere e estimular o protagonismo de adolescentes infratores para outros caminhos, como o da leitura e da escrita, conduziu o projeto que serviu como gatilho e (re)direcionou o presente e o futuro de José.

“Ainda não sei o que quero ser, mas quero uma vida boa. Escrever novamente, talvez”, contou ele em conversa com a Folha de Pernambuco, em tom que esbanjava a leveza da liberdade de quem está ao lado da mãe e dos sete irmãos, com quem divide a casa onde mora, em um distrito da cidade do Moxotó pernambucano. 

Projeto começou despretensioso
Inicialmente sem pretensão de que a ideia fosse além dos portões da Funase, Jedivam abriu rodas de leitura para os adolescentes da instituição em um espaço chamado de “Clube Castelar”.

"Fazíamos oficinas, rodas de leitura, assistíamos a filmes, tudo como forma de estimular atividades. A partir daí veio a ideia de que escrevessem sobre a rotina como internos. Resolvi levar adiante para transformar os relatos em livro, publicar e dar visibilidade”, contou a pedagoga, que viu “Diário da Tranca” ganhar lançamento pela primeira vez em setembro em uma faculdade de Arcoverde, e com a presença dos escritores – alguns deles nunca haviam saído da Fundação. E neste mês de outubro ele foi lançado também na Bienal-PE.
 

Crédito: Kaian Alves


“Quando ouvi de um dos meninos que agora ele poderia ser visto nas ruas não só como ex-adolescente da Funase, mas como escritor, confirmei o quanto tinha sido importante para eles, agora reconhecidos dentro de uma perspectiva fora da realidade de internos”, ressaltou Jedivam. 

Mobilização em rede
Com capas confeccionadas manualmente pelos socioeducandos – os que não escreveram, contribuíram desenhando e produzindo – “Diário da Tranca” tem sido foco de debates em rede, com círculos formados por escritores de outros estados e de países latino-americanos.

O livro, que deve ganhar outros lançamentos em 2022, no Recife, segue reverberando o “ódio por estar preso” de Mário*, 17 anos. Pensamento que logo se dilui ao finalizar, no diário, a mesma frase com “Quando estou na biblioteca, me sinto tranquilo”. Tal qual Paulo*, também de 17 anos, quando “em pleno sábado preso, enquanto todo mundo estava na rua”, citou Victor Hugo em trecho “adaptado” de ‘Os Miseráveis’: “O senhor me castigou severamente, mas não me entregou à morte".

José, em Arcoverde, segue alimentando os desejos de quando ainda era interno. “Se eu pudesse um dia fazer uma coisa, eu queria ser escritor ou narrador, ou modelo, ou tocador de violão, pois isso é arte.” 

 

*Nomes fictícios

*Os nomes dos entrevistados não podem ser revelados em cumprimento às normas do Estatuto da Criança e do Adolescente

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