Discos de Ravi Shankar que mudaram o pop ocidental ganham versão digital

"West Meets East" traz em seus dois volumes Shankar ao lado do violinista americano Yehudi Menuhin

Músico Ravi ShankarMúsico Ravi Shankar - Foto: Reprodução/Divulgação

Para marcar o centenário de nascimento do músico indiano Ravi Shankar, comemorado na terça (7), dois registros antológicos do artista têm relançamento digital. É uma chance de reencontrar ou travar o primeiro contato com aquele que introduziu na música pop do Ocidente um instrumento singular, o sitar.

"West Meets East" traz em seus dois volumes Shankar ao lado do violinista americano Yehudi Menuhin (1916-1999), ambos arrancando o melhor de seus instrumentos. É bom deixar claro que Shankar não tocava cítara, bem mais conhecida. Essa confusão é recorrente.

Cítara e sitar são instrumentos diferentes. A cítara, de origem europeia, tem cordas esticadas sobre uma caixa de ressonância. O sitar, instrumento indiano e da família dos alaúdes, tem suas cordas estendidas ao longo de um prolongamento que avança além da caixa de ressonância, como o braço de um violão.

Sua sonoridade é clara referência da música indiana, e o instrumento vem carregado de uma aura quase religiosa. Quase sempre é tocado com clareza de espaçamentos sonoros, de um modo minimalista. E ninguém conseguiu um resultado tão divinal nessa construção de som e silêncio quanto Ravi Shankar.

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Ele começou a tocar violino ainda criança. Aos 16 anos, adotou o sitar e em menos de dois anos iniciou uma carreira internacional. Apesar de aclamado, seu trabalho era restrito a iniciados. Quando conheceu Menuhin, na década de 1950, a afinidade veio por causa do violino. As experimentações com o parceiro americano foram ricas e influenciaram a carreira de ambos.

Quando George Harrison conheceu Shankar em 1966, o Beatle estava ávido para consumir a filosofia e a música do Oriente. O indiano se transformou em parceiro musical e um tanto guru do guitarrista inglês. Em pleno furacão da beatlemania, Shankar logo se tornou famoso no mundo inteiro. Todos queriam escutar quem impressionava tanto a Harrison.

A segunda metade da década de 1960, sob essa atenção intensa, foi um período fértil para Shankar, com discos incríveis. A reunião com Menuhin rendeu o disco "West Meets East", lançado em janeiro de 1967.

No auge da contracultura, festas hippies nos Estados Unidos e na Inglaterra adotaram as faixas do álbum como trilha sonora. A música de Shankar convivia em harmonia com as transgressões sonoras de Grateful Dead, Iron Butterfly, Soft Machine e outros artistas psicodélicos.

"West Meets East" chegou ao primeiro lugar da lista dos álbuns eruditos da revista Billboard e ficou no topo por 18 semanas consecutivas. No ano seguinte, o disco ainda frequentava a parte de cima da lista de mais vendidos e acumulava prêmios, como o Grammy de melhor performance de música de câmara. Em meio a tanto sucesso, não foi surpresa o anúncio de uma nova colaboração.

"West Meets East - Volume 2" foi lançado em julho de 1968 e repetiu a ótima repercussão. Os dois discos ocuparam posições entre o "top dez" da música erudita por quatro meses.

Cada um editado originalmente em LP simples, os dois volumes têm uma distribuição similar de repertório. No primeiro lado, peças escritas por Shankar para sitar, que a dupla modificou buscando o entrelaçamento com o violino. No segundo lado, obras conhecida da música erudita, que nos dois discos ganharam a participação da pianista Hephzibah Menuhin, irmã do violinista. No segundo volume, a performance de "Sonata para Violino e Piano Número Um", obra de 1921, do húngaro Béla Bartók, chega a ser hipnótica.

A dupla ainda gravou mais um álbum, em 1976, mas "West Meets East - Volume 3" não recebeu a mesma acolhida. Foi considerado por parte da crítica como um disco menos inspirado.

Antes de morrero em 2012, aos 92 anos, Shankar gravou mais de uma centena de discos, boa parte lançada apenas na Índia. Os dois volumes de "West Meets East" entram para lista dos melhores que o artista gravou, porque poucas vezes ele se sentira tão bem no estúdio quanto à vez que esteve ao lado do amigo e parceiro.

São discos para apresentar Shankar às novas gerações, que talvez o conheçam apenas por ser pai da cantora pop de sucesso Norah Jones.


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