Distribuição: um dos pontos críticos do mercado cinematográfico

Distribuidoras de cinema trabalham com obras diversas: de comerciais a longas de perfil independente, essas empresas conectam os filmes às salas de cinema

Cena do filme 'A Moça do Calendário' Cena do filme 'A Moça do Calendário'  - Foto: Pandora Filmes/Divulgação

A estreia de um filme como "Venom" - em cartaz nos cinemas -, baseado em personagem do universo de super-heróis da Marvel, tem um impacto imediato no mercado cinematográfico: apenas em Pernambuco, ocupa mais de 30 salas de cinema (no Brasil, são 1.450 salas, quase metade do parque exibidor do País). Esse número expressivo costuma se repetir, com variações, em outros blockbusters - longas com apelo popular.

Além de estreias dessa magnitude (em termos de números), há também outro tipo de cinema, de perfil independente. Nesta semana, estrearam "O futuro adiante", "A moça do calendário" e "Uma noite de 12 anos": filmes de menor alcance entre espectadores, mas interessantes enquanto obras de arte, em cartaz, aqui no Estado, nos cinemas da Fundação e no Cinema São Luiz.

Levar longas independentes ou comerciais para as salas de cinema é uma das funções das distribuidoras, empresas que conectam a sala de cinema ao filme, intermediando essa relação, trazendo ao espectador uma diversidade de obras. Elas formam uma parte importante do mercado cinematográfico, composto pela sequência produção, distribuição e exibição.

"Trabalhamos com filmes independentes estrangeiros", diz Pedro Henrique Leite, responsável pela distribuidora Supo Mungam Films ao lado de Gracie P. (que distribui o drama argentino "O futuro adiante"), criada em 2014. "Buscamos títulos que dialoguem com o público, independente de serem de cineastas veteranos e conhecidos, como Lynne Ramsay ('Você nunca esteve realmente aqui') e Terrence Malick ('De canção em canção'), ou de jovens cineastas, como Xavier Legrand ('Custódia')", detalha, citando obras que chegaram a Pernambuco.

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No cenário atual, a Vitrine Filmes (que vem lançando obras de destaque do cinema nacional, como os recentes "Benzinho" e "Animal cordial", além de longas internacionais, como o uruguaio "Uma noite de 12 anos") é uma das referências. Criada em 2010, a distribuidora nasceu da percepção de sua fundadora, Silvia Cruz. "Era um momento especial, em que o digital estava despontando, o cinema brasileiro tinha novos realizadores surgindo. Vi que tinha uma oportunidade para uma distribuidora dedicada a esse cinema, a esse novo realizador", lembra Silvia.

Os filmes da Vitrine - distribuidora que lançou os dois longas do pernambucano Kleber Mendonça Filho -, assim como de outras produtoras semelhantes, acabam restritos a poucas salas, embora representem uma parcela potente e significativa do cinema contemporâneo. "Os cinemas de shoppings possuem uma curadoria diferente. Eles exibem filmes de acordo com o perfil deles, do público deles. Então é mais difícil colocar esse tipo de cinema lá", diz Silvia Cruz.

"Para as produtoras pequenas, ter distribuidoras como a Vitrine e semelhantes é uma grande vitória", opina Luiz Joaquim, coordenador do Curso de Cinema e Audiovisual da Aeso. "O trabalho de distribuidoras assim funciona tanto próximo de seu primeiro cliente (a produtora) quando do segundo (o exibidor). Hoje, distribuidoras como a Zeta Filmes e a Supo Mungam Films, entre outras, são parceiras não apenas do produtor mas também do exibidor pequeno", ressalta Luiz, que foi curador do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco entre 2001 e 2017.

As negociações entre curadores e distribuidoras envolvem diferentes definições. "Se estabelece um acordo para projetar o filme. Nesse acordo, pode ficar definido que o filme tenha uma temporada de duas semanas ou mais, ou apenas duas semanas inicialmente e sendo as posteriores semanas renegociadas caso a caso. A negociação também passa por como a sala irá prestar conta para a distribuidora pela exibição do filme. Pode ser definido um percentual da bilheteria obtida (usualmente 50% para distribuidor e 50% para o exibidor - mas percentuais podem variar), ou pode ser estabelecido que o exibidor irá pagar adiantado um valor determinado pelo distribuidor", detalha Luiz.

A relevância dessas distribuidoras está na forma como oferecem a oportunidade ao público de descobrir um tipo de cinema diferente, mais desafiador e fascinante. "A Pandora foi sempre a janela que tornou possível para o público brasileiro o contato com novas cinematografias do mundo todo, como [o diretor chinês] Wong Kar-Wai. Além disso, lançou brilhantemente filmes brasileiros, de 'O invasor', de Beto Brant, a 'Que horas ela volta', de Anna Muylaert", afirma Paula Consenza, da Pandora Filmes (que distribui "A moça do calendário", em cartaz), e atua com filmes independentes desde 1989.

   Rotina

O cotidiano de uma distribuidora envolve diferentes negociações, desde a aquisição dos diretos de um filme até as conversas com curadores, responsáveis pela programação dos cinemas. "Estamos sempre em contato com agentes de venda, uma vez que trabalhamos com cinema independente estrangeiro", diz Pedro Henrique Leite.

"Ficamos informados dos novos projetos em desenvolvimento ou recém-concluídos. Nos dois casos, temos que gostar do filme, para depois conversarmos sobre o potencial para lançamento no Brasil, antes de fecharmos acordo. Esse é um trabalho diário, principalmente quando vamos aos festivais, como Cannes", explica. "Quando temos um título novo, pensamos em como e quando será o lançamento. Cada filme tem uma estratégia diferente. Com isso definido, apresentamos os filmes para exibidores e divulgamos nos cinemas, imprensa, mídias sociais", detalha.

Além de festivais de cinema, uma estratégia importante para negociar direitos de distribuição é acompanhar laboratórios de roteiro, encontros em que cineastas, roteiristas e produtores apresentam novos projetos. "A gente também conversa com diretores de curtas que estão tentando fazer seus primeiros longas", diz Silvia.

"É um trabalho de campo. Vou a festivais e encontros de laboratórios de roteiro. Nesses encontros, você descobre novos realizadores. Às vezes, também ocorre o caminho inverso: os próprios realizadores mandam email apresentando seus projetos, e nós avaliamos", detalha.

Com o filme pronto, o passo seguinte é analisar seu perfil e, assim, definir as estratégias de lançamento. "Quando o longa está pronto, a gente vê o que acontece com o filme. Ele começa a carreira em festivais e assim começamos a entender qual o público desse filme. Daí pensamos no material de publicidade, contatos com salas de cinema, se é um filme mais aberto ou fechado, qual sala tem mais seu perfil", explica Silvia.

Mercado


Uma das dificuldades de distribuidoras que trabalham com filmes independentes é o acesso às salas de cinema. No Recife, as distribuidoras de perfil alternativo costumam encontrar espaço nos dois endereços do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Derby e Casa Forte), no Cinema São Luiz e no Moviemax Rosa e Silva. "A dificuldade é porque os filmes competem entre si. Não só o cinema independente brasileiro, mas também de outros países. É uma quantidade pequena de salas para o número de filmes", ressalta.

"Existem salas e público para o cinema independente", opina Gracie P. "O que acontece é que hoje aumentou a quantidade de lançamentos por semana, e é muito importante que o filme tenha um ótimo público na primeira semana para que ele continue em cartaz. Hoje a primeira semana de um filme pesa mais que décadas atrás", sugere. "Quando os filmes saem de cartaz, trabalhamos o VOD [vídeo sob demanda] (Now, iTunes, Google Play, Looke). O streaming vem crescendo e para os filmes independentes tem sido também uma ótima plataforma", explica.

Na atual configuração do mercado cinematográfico, a tecnologia surge como uma ferramenta importante na estratégia de lançamento. "A possibilidade do VOD é parte importante da estratégia de lançamento hoje e, ao contrário do que muitos pensam, é uma maravilhosa janela complementar às salas de cinema, parte fundamental da nossa estratégia de lançamento", diz Paula Consenza, da Pandora Filmes.

"O que tem sido um entrave para os lançamentos de filmes independentes no Brasil é a forma predadora com que filmes de alto potencial comercial têm sido lançados. Temos um parque exibidor pequeno, de cerca de três mil salas, e muitas vezes quase metade delas estão ocupadas por único filme. Em muitos países isto é regulado de outra forma", argumenta ela.

Eram 3.279 salas até maio deste ano. "Seria maravilhoso ter mais salas, mas não acredito que este seja nosso principal desafio. Se não fosse permitido o monopólio, ou seja, a venda de um único produto em um percentual tão grande dos pontos de venda, certamente teríamos melhores resultados econômicos para toda a cadeia de produção, distribuição e exibição", destaca Paula.

As mudanças no mercado vêm propiciando, inclusive, a formação de distribuidoras com esses perfis variados. "Do tempo que a Vitrine abriu até hoje, muita coisa mudou. Cresceu a quantidade de filmes, o mercado se profissionalizou, aumentou o número de editais, o público para esse tipo de produção, o número de produtoras e distribuidoras", detalha Silvia Cruz.

"Acho que o único setor que ainda tem mais espaço para crescer é o da exibição. O Brasil carece de salas para esse tipo de filme. Há incentivos para produtoras e distribuidoras, mas não para salas. É muito necessário", ressalta.

 

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