Do terreiro para a sala de aula: movimento busca inserir os saberes tradicionais nas universidades
Consórcio articula universidades, ministérios e mestres da cultura popular para transformar o Notório Saber em política pública nacional
A universidade brasileira pode estar diante de uma mudança de paradigma. Um movimento articulado entre instituições de ensino superior, Ministério da Cultura (MinC) e Ministério da Educação (MEC) busca consolidar o Notório Saber como instrumento para levar mestres e mestras das culturas populares e tradicionais às salas de aula – não apenas como convidados, mas como docentes reconhecidos e remunerados.
A proposta é conduzida pelo Consórcio do Notório Saber, criado em 2025 e coordenado pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE), que reúne universidades e institutos federais na construção de uma política nacional.
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Em Pernambuco, um dos articuladores desse debate é Adiel Luna, poeta cantador e mamulengueiro reconhecido com o título de Notório Saber pela Universidade de Pernambuco (UPE).
Em diálogo com universidades e mestres de outros estados, ele acompanha a construção da Rede Nacional do Notório Saber e defende que a discussão vai além da valorização simbólica.
"A tônica dessa discussão é a justiça epistêmica. É tirar o saber popular de um lugar alegórico, exótico e folclórico, equiparando essas formas de conhecimento ao saber acadêmico. É reconhecer que esses mestres e mestras têm, de fato, algo a ensinar e transmitir", afirma.
A iniciativa pretende romper uma lógica que historicamente legitimou apenas os saberes produzidos na academia.
"Esses mestres também pesquisam, ensinam e fazem extensão. O que queremos é reconhecer que esse conhecimento possui o mesmo valor", afirma o professor Aterlane Martins, do IFCE e coordenador-geral do consórcio.
Segundo ele, o objetivo é tornar as instituições "pluriepistêmicas", acolhendo diferentes formas de produção de conhecimento e criando condições para que mestres e mestras atuem como professores efetivos.
Mestre de saberes tradicionais, o poeta cantador e mamulengueiro Adiel Luna é um dos nomes em meio às articulações e discussões com o Consórcio Notório Saber | Foto: Victória Gonçalves/DivulgaçãoMuito além do diploma
O Consórcio do Notório Saber atua em diferentes frentes. Entre elas, estão um diagnóstico nacional sobre a aplicação do Notório Saber nas universidades, experiências conjuntas entre mestres e docentes e a articulação entre MinC e MEC para uma portaria interministerial com diretrizes nacionais.
A iniciativa também criou a Rede Nacional do Notório Saber, que dará continuidade à mobilização.
Para Aterlane, reconhecer formalmente esses conhecimentos é apenas uma etapa. "Não adianta entregar um diploma se isso não garante condições para que esses mestres continuem transmitindo seus saberes. Reconhecer, incluir e remunerar precisam caminhar juntos", resume.
Hoje, universidades como UFMG e UFBA já contratam mestres por Notório Saber, enquanto outras os inserem em projetos de ensino, pesquisa e extensão. A expectativa é ampliar esse modelo em todo o país.
A universidade também precisa aprender
Em Pernambuco, o artesão carnavalesco e mestre Manoelzinho Salustiano, reconhecido pela UPE com o título de Notório Saber em 2021, vê a proposta com entusiasmo, mas faz um alerta: a aproximação precisa respeitar a lógica da cultura popular. "A universidade da cultura popular é no terreiro da cultura popular", afirma.
Para ele, antes de levar os mestres aos campi, é preciso que as universidades frequentem os territórios onde esses conhecimentos são produzidos. "Primeiro a universidade vai até o mestre; depois, o mestre vai à universidade", defende.
Manoelzinho ressalta que o processo deve priorizar os mestres mais velhos e lembra que não existe um único formato de atuação. "Tem mestre que pode dar uma disciplina inteira, tem mestre que dá uma aula-espetáculo, outros, uma palestra. O importante é que haja respeito e remuneração."
Continua em: Quando a oralidade conquista a cátedra: o caso UFMG e mestre Gil Amâncio

