Sáb, 08 de Agosto

Logo Folha de Pernambuco
CULTURA E EDUCAÇÃO

Do terreiro para a sala de aula: movimento busca inserir os saberes tradicionais nas universidades

Consórcio articula universidades, ministérios e mestres da cultura popular para transformar o Notório Saber em política pública nacional

No 1º Encontro de Mestres e Mestras, em Maceió (AL), o Consórcio Notório Saber apresentou as discussões em torno do assuntoNo 1º Encontro de Mestres e Mestras, em Maceió (AL), o Consórcio Notório Saber apresentou as discussões em torno do assunto - Foto: Consórcio Notório Saber/Acervo MinC

A universidade brasileira pode estar diante de uma mudança de paradigma. Um movimento articulado entre instituições de ensino superior, Ministério da Cultura (MinC) e Ministério da Educação (MEC) busca consolidar o Notório Saber como instrumento para levar mestres e mestras das culturas populares e tradicionais às salas de aula – não apenas como convidados, mas como docentes reconhecidos e remunerados.

A proposta é conduzida pelo Consórcio do Notório Saber, criado em 2025 e coordenado pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE), que reúne universidades e institutos federais na construção de uma política nacional.

Em Pernambuco, um dos articuladores desse debate é Adiel Luna, poeta cantador e mamulengueiro reconhecido com o título de Notório Saber pela Universidade de Pernambuco (UPE).

Em diálogo com universidades e mestres de outros estados, ele acompanha a construção da Rede Nacional do Notório Saber e defende que a discussão vai além da valorização simbólica.

"A tônica dessa discussão é a justiça epistêmica. É tirar o saber popular de um lugar alegórico, exótico e folclórico, equiparando essas formas de conhecimento ao saber acadêmico. É reconhecer que esses mestres e mestras têm, de fato, algo a ensinar e transmitir", afirma.

A iniciativa pretende romper uma lógica que historicamente legitimou apenas os saberes produzidos na academia.

"Esses mestres também pesquisam, ensinam e fazem extensão. O que queremos é reconhecer que esse conhecimento possui o mesmo valor", afirma o professor Aterlane Martins, do IFCE e coordenador-geral do consórcio.

Segundo ele, o objetivo é tornar as instituições "pluriepistêmicas", acolhendo diferentes formas de produção de conhecimento e criando condições para que mestres e mestras atuem como professores efetivos.

Mestre de saberes tradicionais, o poeta cantador e mamulengueiro Adiel Luna é um dos nomes em meio às articulações e discussõesMestre de saberes tradicionais, o poeta cantador e mamulengueiro Adiel Luna é um dos nomes em meio às articulações e discussões com o Consórcio Notório Saber | Foto: Victória Gonçalves/Divulgação

Muito além do diploma
O Consórcio do Notório Saber atua em diferentes frentes. Entre elas, estão um diagnóstico nacional sobre a aplicação do Notório Saber nas universidades, experiências conjuntas entre mestres e docentes e a articulação entre MinC e MEC para uma portaria interministerial com diretrizes nacionais.

A iniciativa também criou a Rede Nacional do Notório Saber, que dará continuidade à mobilização.

Para Aterlane, reconhecer formalmente esses conhecimentos é apenas uma etapa. "Não adianta entregar um diploma se isso não garante condições para que esses mestres continuem transmitindo seus saberes. Reconhecer, incluir e remunerar precisam caminhar juntos", resume.

Hoje, universidades como UFMG e UFBA já contratam mestres por Notório Saber, enquanto outras os inserem em projetos de ensino, pesquisa e extensão. A expectativa é ampliar esse modelo em todo o país.

A universidade também precisa aprender
Em Pernambuco, o artesão carnavalesco e mestre Manoelzinho Salustiano, reconhecido pela UPE com o título de Notório Saber em 2021, vê a proposta com entusiasmo, mas faz um alerta: a aproximação precisa respeitar a lógica da cultura popular. "A universidade da cultura popular é no terreiro da cultura popular", afirma.

Para ele, antes de levar os mestres aos campi, é preciso que as universidades frequentem os territórios onde esses conhecimentos são produzidos. "Primeiro a universidade vai até o mestre; depois, o mestre vai à universidade", defende.

Manoelzinho ressalta que o processo deve priorizar os mestres mais velhos e lembra que não existe um único formato de atuação. "Tem mestre que pode dar uma disciplina inteira, tem mestre que dá uma aula-espetáculo, outros, uma palestra. O importante é que haja respeito e remuneração."

Continua em: Quando a oralidade conquista a cátedra: o caso UFMG e mestre Gil Amâncio

Veja também

Newsletter