"In Memoriam" investiga raízes de sírios que migraram para o Brasil
Curta documental "In Memoriam" integra programação da Mostra Mundo Árabe de Cinema
Despretensioso, o curta-metragem documental "In Memoriam" tem apenas um personagem: o sírio Jorge Samman. Atrás do volante de seu carro e debruçado em uma mesa de café, entre baforadas de cigarro, ele fala por dez minutos sobre sua família. Depois, os créditos sobem.
Apesar da despretensão -ou justamente por causa dela- "In Memoriam" é um dos destaques desta edição da Mostra Mundo Árabe de Cinema. O curta documenta a busca do cineasta brasileiro Otavio Cury por suas raízes familiares na Síria. O filme acaba tocando, assim, em temas fundamentais da comunidade de origem árabe no Brasil, cuja história aliás eu conto no meu recém-lançado livro "Brimos".
Em 2001, Cury foi até a cidade síria Homs à procura de mais informações sobre a sua família. Seu bisavô, Daud Constantino al-Khoury, tinha sido um dos principais dramaturgos sírios. O cineasta transformou aquela experiência no documentário "Constantino", de 2012. Narrado em primeira pessoa, o filme tem um caráter bastante autoral, visceral, acompanhando a auto-descoberta de Cury.
Leia também
• Filme de estudante da UFPE é selecionado para festivais na França e nos Estados Unidos
• Filme retrata encontro entre contador de histórias africano e comunidades quilombolas
• Filmes sobre Suzane Von Richthofen estreiam em setembro
Foi em 2001 que Cury conheceu Jorge, primo de segundo grau de seu avô. Em 2009, em uma segunda viagem, o cineasta brasileiro gravou sua conversa com o parente usando uma câmera portátil. Jorge, porém, adoeceu antes das gravações oficiais de "Constantino" no final de 2009. Portanto, ele infelizmente não aparece no documentário de 2012.
Este novo filme, "In Memoriam", resgata aquelas primeiras imagens. Resgata, também, o personagem de Jorge. A aparente simplicidade de sua fala esconde camadas e camadas de história familiar, um importante registro da experiência de migrantes sírios no Brasil. Jorge narra a vida e morte de seus parentes. Ele também flerta com o fantástico e o poético, Cury diz à reportagem. Por exemplo, na história do homem que morre abraçado a um cavalo. É um interessante documento de história oral, para os interessados na área.
Nos curtos dez minutos de conversa, Jorge cita as instituições fundadas por sírios no Brasil -como o Clube Homs- e o ex-governador Paulo Maluf, de origem libanesa. Ele fala em espanhol porque, apesar de ter nascido na Síria, viveu na Argentina, como tantos outros migrantes.
O curta "In Memoriam" está em cartaz até 16 de setembro na Mostra Mundo Árabe de Cinema (https://mundoarabe2021.icarabe.org/home/movies/32) . Como os demais filmes, a exibição é gratuita. O diretor Cury participa, ademais, de um bate-papo nesta quarta-feira (1º), às 17h, com o cineasta Wissam Tanios, a reitora da Unifesp e idealizadora da mostra Soraya Smaili e o historiador Murilo Meihy.

