Documentário narra descaso após crimes ambientais em Mariana

"O Amigo do Rei" é um levantamento exaustivo (não por acaso dura quase 2h20) sobre um crime ambiental brutal, que seria seguido por outro maior ainda (Brumadinho).

Tragédia de Mariana aconteceu em novembro de 2015Tragédia de Mariana aconteceu em novembro de 2015 - Foto: Fred Loureiro/Secom-ES

Não é difícil fazer um inventário das questões em que toca "O Amigo do Rei": rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG); drama humano das vítimas; denúncia do descaso, incompetência e ganância da Samarco/Vale; repercussões humanas e econômicas da catástrofe; discussão política em torno do sucedido; picaretagem pura e simples; questões ambientais (diversas, todas graves); danos à água; crítica da economia extrativista; crítica de estratégias de desenvolvimento governamentais; sucateamento do Estado; denúncia dos danos do financiamento de campanha.

Fiquemos por aqui e já dá para notar que, desde seu intento, "O Amigo do Rei" é um levantamento exaustivo (não por acaso dura quase 2h20) sobre um crime ambiental brutal, que seria seguido por outro maior ainda (Brumadinho).
O panorama que se abre ao espectador, desde o início, é o de um país em que incompetência, amadorismo, incompreensão do mundo, desprezo pelos outros juntam-se a tramóias puras e simples. Não se sabe qual desses fatores domina o país, ao menos em seu regime extrativista (mas não é impossível transpô-lo para outras regiões e aspectos).

Diga-se, Mariana já é tragédia antiga. Depois veio uma maior, a de Brumadinho. A questão não mudou um palmo de lá para cá. No aspecto político, no econômico, no ambiental. A horas tantas o filme resume bem a questão: Minas Gerais tem quatro fiscais para cuidar de 735 barragens. Sim, quatro. Não quarenta, nem catorze.

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Os especialistas, os ambientalistas, bradam; os que perderam bens e parentes continuavam a ver navios (quando o filme foi rodado, ao menos), um fundo de R$ 20 bilhões para reparação dos danos foi confiado à... adivinhe... Samarco/Vale.
Seria bem melhor se "O Amigo do Rei" deixasse certas infantilidades (como a acusação generalizada à política) cujas decorrências são bem conhecidas, se encontrasse maneiras de tornar a apresentação desses problemas mais agradável, seria melhor, sobretudo, que esse documentário enorme fosse transformado numa série para televisão.

Ainda assim, o que mais importa é que é relevante. Pior: o que nos mostra é um problema, grande, mas, ainda assim, um entre os mil e um que culpabilizam nosso passado, atormentam o presente e fazem prever um futuro ainda mais irrespirável.
Com isso, "O Amigo do Rei" leva o espectador a ignorar seus defeitos, que não são poucos, a começar pela opção de não optar por um ponto de vista sobre a catástrofe, mas a busca de abarcar todos eles.

O que torna a questão mais complexa é que todos esses pontos de vista são pertinentes e, já dentro da segunda hora de filme, os vários eixos começam a se encontrar. O filme tem virtudes (sobretudo as cenas captadas a quente no local já valeriam um bom filme sem palavras, que falasse apenas por imagens) e defeitos (uso ruim da música em vários momentos; a inclusão de cenas de ficção política perfeitamente dispensáveis), mas o assunto passa por cima de tudo e garante sua relevância.

O AMIGO DO REI
PRODUÇÃO Brasil, 2019
DIREÇÃO André D'Elia
QUANDO Estreia nesta quinta (8)
CLASSIFICAÇÃO
AVALIAÇÃO Muito bom

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