Drag queens buscam versatilidade para permanecer atuantes

Ocupando cada vez mais espaço na sociedade, drag queens atuam como DJ's, modelos, costureiras e cantoras, como a potiguar Kaya Conky, que faz festa no Recife neste sábado (12)

Drags comentam sobre sua arte e a cena recifenseDrags comentam sobre sua arte e a cena recifense - Foto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

Talvez não exista, dentro das várias formas de expressar uma arte, uma tão versátil quanto a de ser drag queen. Presentes em atividades como cantoras, modelos, costureiras e DJ's, ser drag queen vai além do que a maquiagem e o figurino aparentam. É uma forma de resistência em um País ainda tão preconceituoso, com índices alarmantes de violência contra a população LGBT, quando elas dão a cara à tapa e ocupam maiores espaços na sociedade. Nos estados permanentes de adaptação e movimento, as drags cada vez mais se firmam no cotidiano do brasileiro.

Um exemplo de sucesso pode ser visto neste sábado, às 23h, no Espaço Almirante (Cais das Cinco Pontas), com a drag potiguar Kaya Conky, que é a atração principal da festa Carola. Dona de dois hits do funk ("E aí, bebê" e "Bumbum tremendo"), ela já alcançou mais de 5 milhões de visualizações no YouTube. Além de Kaya, a festa conta com mais seis artistas pernambucanas da cena drag. Informações: (81) 99102-5777.

   Envy

"Sempre gostei muito do poder da transformação, em como um risco qualquer de maquiagem em meu rosto mudava minhas feições", diz Envy Hoax, de 24 anos. Alexandre Gonçalves - o designer por trás da Envy - se monta profissionalmente há quatro anos, mais ou menos quando houve o considerado "boom" da cena drag no Recife.

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Com a influência do reality show estadunidense "Rupaul's Drag Race" - que já estava em sua sexta temporada e consolidando um lugar na cultura pop - muitos meninos tomaram coragem e, de saltos altos e "lace front", ganharam a noite da capital pernambucana. "Sem dúvida que o reality deu esse impulso, além de ajudar a diminuir o estigma que esse trabalho carrega. É uma cultura muito marginalizada", comenta Envy.

A cultura drag bebe de muitas fontes de outras manifestações artísticas, como o trabalho de uma diva pop ou do cinema e teatro. Envy Hoax abraça sua conexão com a moda, tendo inclusive curso de corte e costura para ela própria montar seus looks, além da enorme influência da cantora Lady Gaga. O visual de uma drag queen não sai barato - o look que Envy Hoax apresenta na foto que ilustra este texto custou na faixa de R$ 800, incluindo roupas, peruca e maquiagem.

Apesar dos percalços e dos altos custos para se montar, Envy Hoax colhe bons frutos em sua trajetória. "Fui chamada para palestrar no campus da Universidade de Pernambuco em 2016, na Semana de Cultura LGBT, e dali vi gente que não conhecia o que é ser drag queen ou possuía uma visão distorcida do que era, e até quem passou a se montar após isso. É ótimo presenciar esta mudança", afirma Envy Hoax.

   Zizara

Aos 20 anos, João Miguel faz de sua drag - de quase três anos de idade - uma autêntica diva. Engraçada, forte, caricata, Zizara C. - sobrenome forte demais para vir a ser publicado - usa do humor como ferramenta de trabalho. "Eu tento humanizar minha drag, passar algo positivo para aqueles que me recebem nas festas. Minhas inspirações são pessoas comuns, do cotidiano, que carregam o peso da vida mas ainda assim encontram meios de gerar felicidade", comenta Zizara, que durante suas performances nas noites recifenses encontra muitas pessoas solitárias. "Talvez seja um mal da nossa geração, do nosso tempo. Não me sinto na obrigação de 'animar' as pessoas, porém é triste observar esse fenômeno", avalia Zizara.

A drag queen é um exemplo das muitas que se voltam completamente ao ofício de se montar, sendo autônomas. Com o enfraquecimento da cena drag no Recife, muitas boates e festas passaram a desvalorizar o trabalho. "Somos praticamente usadas e descartadas. Não querem nos pagar pelas nossas performances, ou pagar um valor bem inferior do combinado", critica a drag.

Mesmo com uma maior inserção de drag queens no cenário musical brasileiro, Zizara discorda que isso signifique uma aceitação. "De quais maneiras essas drags estão sendo apresentadas ao público? A luta por respeito e representatividade continua".

   Carola

Criada no final de 2013 pelo designer Nuno Pires, a Carola surgiu com a proposta de ser uma alternativa para o fim de semana recifense. "Na época eu ainda trabalhava na produção do antigo Santo Bar, que funcionava da quarta-feira a domingo, e cada dia era dedicado a um ritmo musical diferente. Nenhum deles era pop. Percebemos isso - inclusive que nenhum outro espaço ou festa focava nesse gênero - e criamos o selo. Hoje somos quatro produtores LGBTs, e temos orgulho disso, de conseguirmos produzir uma festa segura e com qualidade, de forma completamente independente, que agrega nossa comunidade e além dela", comenta Nuno.

Com quase cinco anos de existência, Nuno Pires avalia que foi inevitável a Carola não abordar o tema drag queen. "Organizamos batalhas de lip sync, incentivamos com descontos as pessoas que chegassem montadas e em toda a campanha de divulgação enfatizávamos que aquela noite deveria ser livre de preconceitos e sem julgamentos", pontua.

Kaya Conky realiza apresentação na Carola

Kaya Conky realiza apresentação na Carola - Crédito: Divulgação



Kaya Conky se aproximou da festa quando esta chegou em sua cidade, Natal. "Conheci Kaya quando ainda nem existia Kaya Conky, apenas Igor Carvalho, na primeira Carola que fizemos lá. Depois ela veio sa er DJ em algumas edições, voltou na época em que lançou o seu single "E Ai, bebê", e entre outras situações em que estivemos juntos. Então o motivo é primeiramente pessoal, porque Kaya faz parte da nossa história. Quando pensamos sobre a Carola Drag e definimos que queríamos trazer um show, vimos que ela tava rodando o Brasil com a #Sabequevatour e que seria perfeito encaixar um show completo dela numa edição drag".

Além de Kaya Conky, seis artistas pernambucanas serão destaque na noite. Byanka Nicoli será responsável pela apresentação do evento, mas também fará duas performances ao longo da balada. No comando das picapes, quatro drags DJs já estão confirmadas: Envy Hoax, Zizara, Vanda e Mahalla Kashman.

A novidade é que uma queen novata também terá oportunidade de mostrar seu trabalho. Depois de um concurso que será lançado nas redes sociais, os produtores do evento anunciarão uma nova drag DJ para ingressar na equipe da Carola e se apresentar pela primeira vez neste sábado (dia 12 de maio). Ingressos já estão à venda no site Sympla e na Delikata Doces e Salgados (Casa Forte, Bairro Novo e Boa Viagem), a partir de R$ 75 (open bar). Informações: (81) 99102-5777 e (81) 98298-4268.

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