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É Tudo Verdade e Festival de Cannes promovem debate sobre cinema latino-americano

O tema do encontro foi a produção documental latino-americana, com ênfase nos filmes autobiográficos e de cunho político

Cena de 'Democracia em Vertigem', de Petra CostaCena de 'Democracia em Vertigem', de Petra Costa - Foto: Netflix/Divulgação

O É Tudo Verdade, principal evento de documentários do país, firmou parceria com o Festival de Cannes para integrar sua programação virtual, que acontece após o cancelamento da edição de 2020 devido à pandemia de coronavírus.

"Numa conjuntura tão desafiadora como a atual, trata-se de uma oportunidade única de, mesmo limitada ao ambiente virtual, expandir o interesse, o reconhecimento e as oportunidades de mercado para o documentário brasileiro e latino-americano", afirmou Amir Labaki, criador do É Tudo Verdade, em nota.

O evento fruto da parceria aconteceu nesta terça-feira (23), como parte do Marché du Film, solução encontrada por Cannes para permitir a divulgação de filmes e o encontro da classe cinematográfica virtualmente.

A videoconferência reuniu Labaki, a cineasta brasileira Petra Costa, indicada ao Oscar por "Democracia em Vertigem", o diretor argentino Andrés Di Tella e a curadora Anna Glogowski. O debate foi fechado para convidados, mas uma gravação estará disponível nas redes sociais do É Tudo Verdade, a partir das 19h desta terça.

O tema do encontro foi a produção documental latino-americana, com ênfase nos filmes autobiográficos e de cunho político. "Eu comecei a investigar a temática autobiográfica não pelo cinema, mas pelo teatro", disse Costa em sua introdução. A indicação da cineasta ao Oscar gerou controvérsia no começo do ano, com parte do público criticando "Democracia em Vertigem" por seu tom escancaradamente pessoal.

Ela aproveitou o debate para explicar o processo de elaboração do longa-metragem, que tomou como inspiração "A Batalha do Chile", de 1975, sobre a queda do presidente chileno Salvador Allende.

"Eu tinha assistido ao filme alguns meses antes e, com ele, entendi que nós estávamos vivendo no passado. Entendi que os protestos pelo impeachment da Dilma eram fascistas. Então eu senti necessidade de documentar isso justamente por ter assistido àquele filme", explicou.

Foi então que ela percebeu como sua própria história de vida se conectava à da democracia no Brasil, elemento fundamental para construir a narrativa de seu indicado ao Oscar.

Sobre a situação atual do país, Costa a classificou como uma "era pós-Estado". "Nós estamos registrando o que está acontecendo no Brasil, com a pandemia e com essa crise política que nunca acaba. É interessante, porque nós estamos vivendo em uma era pós-Estado, em que não temos ao menos ministro da Saúde", afirmou.

"Por outro lado nós temos comunidades impressionantes, que estão se organizando e sobrevivendo a essa situação."
Essa será a premissa de seu próximo trabalho. Atualmente, Costa reúne gravações de anônimos falando sobre a pandemia, enquanto também filma seu próprio material. As imagens darão vida a "Dystopia", documentário sobre os efeitos da Covid-19. "É um filme que se passa muito menos nos palácios, se comparado a 'Democracia em Vertigem', e muito mais nas periferias e nos lugares mais afetados pela doença."

O argentino Di Tella, de títulos como "Fotografías" e "Ficción Privada", aproveitou para também falar de seus próximos trabalhos: "Um projeto que eu gostaria de poder filmar algum dia é sobre os pampas, essa vasta região argentina que há tanto tempo faz parte da nossa identidade, mas que hoje é tão esquecida".

DOC TALK - É TUDO VERDADE E FESTIVAL DE CANNES
Quando Disponível: a partir das 19h desta terça (23)
Onde: facebook.com/ETudoVerdadeOficial

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