Eleição de Trump foi "estranhíssima", diz Maria Bethânia

Cantora falou sobre as crises atuais, suas relações com a tecnologia e com os fãs

Anderson Ferreira perdeu comando do partido por ocasião do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff mas há apostas de que pode reverter cenárioAnderson Ferreira perdeu comando do partido por ocasião do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff mas há apostas de que pode reverter cenário - Foto: Arthur Mota /Arquivo Folha

Dividida entre a alegria de lançar um trabalho que registra as comemorações de seus 50 anos de carreira e a preocupação com o atual estado do país e do mundo. 

Foi com esse espírito que Maria Bethânia, 70, recebeu a Folha na tarde de terça (29), numa casa de festas em São Conrado, zona sul do Rio. O mote da entrevista era o lançamento do CD e do DVD duplo de sua turnê "Abraçar e Agradecer", que rodou o país em 2015, mas a cantora também se manifestou sobre as crises atuais, suas relações com a tecnologia e com os fãs. Leia, abaixo, algumas das principais declarações da baiana.

Mundo
O mundo está dando demonstrações estranhas, né? As escolhas políticas, a própria natureza, os terremotos, as devastações. Achei estranhíssima essa eleição [de Donald Trump]. Primeiro que lá, eu fui saber por conta disso, a votação não é direta, é indireta. Então pra que que vota? Vale um, e o outro vota pra quê? Aqui, quando era ditadura, ninguém ia votar, não tinha nem esse papo. Mas lá vão, votam, pra nada?

Participação Política
Eu não tenho tanta convicção nem aprofundados estudos sobre essas questões [políticas]. Ficar que nem papagaia não me interessa, ser mais um. Minha opinião sobre as coisas sempre estará nítida em tudo o que eu fizer, no meu trabalho, nos meus discos, nos textos que eu escolho, na maneira como vivo, no meu comportamento com o outro. Minha relação é nítida, é política. Agora, ficar assim, "eu sou isso, eu sou aquilo"... O Caetano toca aquela sanfona dele, é genial, meu irmão lindo. Sempre gostou de criar polêmica. Chico [Buarque] gosta de ser radical, é muito forte nessa questão, ele vai até o fim, acredita. O meu jeito é esse e eu não quero mudar.
Agora, em três momentos da minha vida, me vi envolvida, opinando. Nas Diretas [1984], quando fiz o comício em Minas, o mais importante. Na primeira campanha de Fernando Henrique [à presidência, em 1994]. E na primeira campanha do Lula [à presidência, em 1989]. Na que ele ganhou [2002], ele me telefonou e me pediu para gravar o "Sonho Impossível", para o último programa dele, e eu gravei. Então eu fiz campanha para todas as bandas.

Por que FHC e Lula?
Fernando Henrique porque era professor, um intelectual por quem tenho admiração, um homem estudado, capaz, quis que ele desse a opinião dele, tão preparada, para o Brasil. Eu o conheci na casa de Violeta Arraes, minha grande amiga, em Paris. O conheci quando ele era professor lá, mas não sou grande amiga.
E o Lula pelo contrário, porque não teve direito a muito estudo, também não quis estudar muito, então quis ver como era. Não foi com o professor, quem sabe vai com esse aí que não sabe. Mas não deu também. Eu fiz porque acreditava. No dia em que votei no Lula, pensei muito em meu pai, ele era muito comunista, de esquerda. Quando eu vim fazer [o show] 'Opinião' [no Rio, em 1965, substituindo Nara Leão], todo mundo assim 'mas você sabe que espetáculo é esse?', eu disse ah, é agora, meu pai, que eu vou dar um show aqui [risos]. Descasquei. Sei do que estou falando sim senhor. Fui educada assim.

Como compara Lula e FHC?
O primeiro [mandato] de Fernando Henrique, extraordinário. O primeiro de Lula, bom. Bem bom. Extraordinário. Os dois segundos, péssimos. [pausa] Não entendo. A primeira alavanca do Fernando Henrique foi maravilhosa, e a primeira do Lula foi outra luz. Eu achei que agora ninguém pegava mais a gente.

Mulher na presidência
Bacana. Muito interessante para o Brasil. Não vou comentar os acertos e erros dela [Dilma Rousseff] politicamente, mas eternamente serei grata pela maneira como ela reverenciou a morte de minha mãe [dona Canô, em 2012]. Então a respeito.

Prioridade para a Educação
Se você sabe ler, entenderá tudo mais facilmente. Sobre você, seus direitos, sua comida, suas escolhas, tudo. Agora, se você não sabe, fica ouvindo informação voando, você se dana. Eu fui educada antes da ditadura, e era muito boa nossa educação. O que aconteceu? Está faltando lastro. Que fique claro que isso é o mais importante. Que quem manda no Brasil bote isso claro para a população. Depois a gente vê o resto, vamos educar primeiro. Tem de educar, tem de dar o direito de escolher.

Relação com os fãs
Durante todo o ano [2015], me mostravam tantas coisas, imagens lindas, o modo como o admirador vê o seu artista. Isso é muito interessante pra mim. Eu não respondo carta de fã, acho que é um desequilíbrio, eles escrevem para uma imaginação, não para uma pessoa de carne e osso. Então, se uma pessoa de carne e osso responde, fica difícil para o entendimento deles. Mas algumas coisas me chegam, fotos e tal. E foi tão forte isso nos 50 anos que eu falei 'gente, isso é muito bonito, eles estão me dizendo como me veem'. E achei que era importante que estivessem presentes numa comemoração tão nobre com essa expressão deles.

Internet e Celular
Eu fico nervosa, gente, para, tá muito rápido. Fico tonta, mareada. As discussões mudam muito rápido, eu fico zonza, não consigo. Para um pouquinho, pensa, será que é isso mesmo? Quero mesmo esse telefone, esse carro? E não dá tempo de pensar. É uma ansiedade, Deus... Não acordo e ligo o telefone. Senão não trabalha, não cozinha, não lê, não namora. Jô Soares já dizia para não botar TV no quarto, senão não namorava. Agora é o telefone. Com telefone ligado, não namora. A pessoa fica enlouquecida. E tira o sono. Eu, que gosto de dormir cedo, enlouqueço. Não quero isso não.

Meu telefone é para eu ligar. Quando alguém que eu conheço muito me diz "minha irmã, lhe mandei um vídeo", eu, pela cara do vídeo, vejo se vou querer ver ou não. Às vezes distrai. Ontem eu recebi um vídeo maravilhoso, de um macaco que fica dando tapa no tigre. É um espetáculo. Macaco dar tapa em tigre é genial, isso é maravilhoso. É Bahia.

Trabalho
Eu gosto de ficar em casa. Por mim, fico na minha casa e vou cantar. Se fosse Santo Amaro [BA], era melhor. Mas aqui no Rio, também gosto. Agora, ficar em hotel é difícil. E é a maior parte da minha vida. O que me cansa não é trabalhar, é aeroporto ruim, avião e hotel decadente, teatros caindo pelas tabelas. Isso me cansa e me entristece.

Próximos Passos
Em 2015, estava antenada e preocupada [com a situação do país], mas tinha aquele cavalo puro sangue correndo [a turnê "Abraçar e Agradecer"]. Vivi para aquilo ali. Já neste ano, ainda com sobras das comemorações, mas bem mais recuada, fazendo mais leituras. Mesmo porque preciso esvaziar, foi muita coisa. Preciso do nada, estou adorando que saia. Estou querendo ficar sem fazer nada, para que o que eu quero fazer chegue. Quero voltar para o palco, gravar um disco, essas coisas que eu sei e de que gosto.

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