'Em Pedaços' acompanha saga de vingança, mas se perde nas reações de personagens

Filme estreia nesta quinta-feira (15) em circuito comercial

Diane Kruger em cena do filme 'Em Pedaços', de Fatih AkinDiane Kruger em cena do filme 'Em Pedaços', de Fatih Akin - Foto: Divulgação

Quis o destino que "Em Pedaços", novo longa de Fatih Akin, estreasse em circuito comercial depois de "The Square" e "Sem Amor", representantes máximos do cinema do mal-estar europeu.

Os sinais do mal-estar são tratados com maior frontalidade no filme de Akin, e por isso talvez seja injusto colocá-lo no balaio da chamada hanekização do cinema europeu, em que o mal-estar é trabalhado com uma elegância dúbia e uma falta de frontalidade que muitas vezes indica uma terrível falsidade.

Já é suficientemente terrível que Akin tenha sido um dos responsáveis pela popularização da câmera tremida no cinema europeu com seu primeiro sucesso "Contra a Parede". Deixemos de lado, por enquanto, esse contexto e tentemos nos concentrar no longa "Em Pedaços".

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Nele, com uma câmera felizmente mais sossegada e atenta, acompanhamos Katja (Diane Kruger, elogiadíssima por esse papel), uma mulher alemã que vê seu marido curdo e o filho do casal morrerem numa explosão criminosa dentro do bairro turco de Hamburgo.

Desiludida, ela parece não encontrar mais forças para viver. Encontra um duvidoso refúgio no consumo de drogas pesadas. Até que um amigo advogado é informado de que a bomba teria sido colocada ali por neonazistas. Ela, então, passa a viver pela vingança.

O filme se estrutura em três atos bem distintos ("A Família", "Justiça", "O Mar"), precedidos por um prólogo em que vemos o casamento de Katja na prisão. Seu marido estava preso por tráfico de drogas e eles se conheceram porque ela era usuária e cliente dele.

Após os créditos, que firmam o nome do filme com a mesma fonte que estampou tantos LPs de heavy metal desde os anos 1980, surge o primeiro ato, que se dedica principalmente a mostrar a luta para superar o luto. Uma luta que tem tudo para ser perdida, podemos dizer.

No segundo ato, temos o julgamento. É nele que percebemos melhor a podridão da sociedade, com alguns advogados e empresários mancomunados para salvar dois jovens criminosos empenhados, como eles, num ideal de limpeza étnica.

É um momento duríssimo, em que o mal-estar é explicitado de um modo que nos mostra a fragilidade das boas ações diante da crueldade do mundo. Sobre o terceiro ato melhor não falar, sob o risco de antecipar coisas demais ao leitor. Basta dizer que esse ato provavelmente vai determinar adesões entusiasmadas ou rejeições ferozes ao filme. Creio que a segunda hipótese é mais provável.

O espectador que se ater apenas aos fatores cinematográficos, porém, poderá perceber que Akin realizou seu melhor filme do ponto de vista estrutural, ainda que se perca nas reações dos personagens, sobretudo de Katja, cujo comportamento nem sempre faz sentido, mesmo num sentimento de desespero e vingança.

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