Em residência artística, performances de artista pernambucana focam na sexualidade

Kalor Pacheco passou 30 dias no epicentro da prostituição em Belo Horizonte, onde pensou sobre o tema e construiu sua obra

Artista pernambucana, Kalor Pacheco (à direita) realiza performances focadas na sexualidadeArtista pernambucana, Kalor Pacheco (à direita) realiza performances focadas na sexualidade - Foto: Hirosuke Kitamura

A pernambucana Kalor Pacheco está realizando performances dentro de um projeto de residência que reúne 11 artistas no Museu do Sexo das Putas, em Belo Horizonte, em Minas Gerais, e tem apoio da Fundação Nacional de Artes (Funarte), do Ministério da Cultura. Entre elas, uma vídeo-projeção que lida com o tema dos órgãos genitais femininos, tratando da relação entre a “limpeza” dos corpos de mulheres e homens no ato sexual usando o sabonete íntimo feminino como metáfora. “A performance fala sobre como nós, mulheres, somos tidas como sujas, principalmente no âmbito da prostituição, apesar de muitos homens não lavarem nem os seus sovacos”, explica Kalor.

Durante a residência artística, os participantes ficam hospedados num dos hotéis da zona mais boêmia de Belo Horizonte, na região dominada pela rua Guaicurus, o epicentro da prostituição local. O lugar também é considerado o maior centro de prostituição do Brasil. Lá, as prostitutas pagam pelas diárias dos quartos, menos arriscado que trabalhar nas ruas. O endereço também abriga a Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Aprosmig). A relação com o dia a dia dessas mulheres é o ponto de partida das obras desenvolvidas ao longo dos 30 dias da experiência.

Nas performances de Kalor, a sexualidade do corpo que anseia por ser livre divide espaço com uma luta da visibilidade social da mulher. “Minhas performances partem de uma inquietação pessoal. Então por meio da empatia e ouvir a historias de vidas dessas mulheres alcanço esses pontos de encontro entre as nossas histórias e nossos próprios corpos.”

Ainda sem sede física, a Aprosmig está em processo de pleito, junto à prefeitura da cidade, por um espaço físico que abrigue o museu. O local escolhido é uma casa em ruínas na mesma rua. As intervenções são realizadas em forma de mostra itinerante em diversos pontos da rua Guaicurus e em outros equipamentos culturais da cidade. De tudo o que for produzido na residência da qual Kalor participa, uma parte já está destinada a compor o acervo do futuro museu. Até lá, é possível conferir as ações no site oficial da Associação (www.museudasputas.wixsite.com/museu).

Sobre a convivência com as prostitutas, Kalor destaca a marca que elas deixaram nas obras criadas pelos artistas. “Houve quem optou por entrevistá-las em vídeo, fotografá-las, desenhá-las, e teve grafite também! Fui na contramão disso para encontrar o lugar delas em mim mesma”, explica.

O resultado imediato foi a sua primeira performance - "Eu tive que engolir". Na ocasião, a artista foi filmada numa cabine, com o corpo tingido de urucum, e o vídeo foi projetado num telão que costuma transmitir somente filmes pornô. O público, majoritariamente masculino, acabou por questioná-la sobre o que a levou a fazer aquilo. “Todos me perguntavam o quanto ganhei, ou mesmo se eu fazia programas, pois parecia inadmissível que eu tivesse tal autonomia sobre o meu corpo a ponto de realizar a performance assim, gratuitamente. Como se o corpo da mulher não pudesse ser exibido assim. E se assim fosse, somente por dinheiro e para o deleite masculino; nunca pela arte e por própria experiência e exorcismo pessoal, que foi o caso.”

Por outro lado, as prostitutas que inspiraram a obra, deram uma resposta mais inusitada. “As que viram, em especial a Nice, uma ex-prostituta e cozinheira do hotel Styllus, pela qual nutro muito afeto e vice-versa, me disse: mas você não tem que engolir nada, minha fia”, conta, divertindo-se. Kalor conta que cada experiência com as mulheres e com o público também rende um texto, uma reflexão pessoal, que ela compartilha com algumas pessoas através das redes sociais. “Talvez na edição final do vídeo use como trilha sonora, mas é tudo coisa de processo criativo né? Ainda estou sentindo tudo isso.”

A artista ainda aponta que essa experiência artística alcança públicos que normalmente não se interessariam por intervenções artísticas, e que isso enriquece o processo. Para alcançar o público, a residência artística tem trabalhado com uma ampla divulgação no local e através de redes sociais. Nesta quarta-feira 912), além da exibição da produção audiovisual de Kalor Pacheco haverá exposição fotográfica de Hirosuke Kitamura, um artista japonês radicado em Salvador, e show da Orgia Cruel, uma banda de um homem só, o músico Miguel Javaral.

Ainda sobre a divulgação das obras realizadas na residência artísticas, Kalor revela em primeira mão ao Portal FolhaPE que os artistas residentes do Museu do Sexo das Putas devem fazer fazer uma ação do Museu do Sexo das Putas no Festival Coquetel Molotov BH, dia 15. “Estamos conversando com Nestor Mádenes, que é quem organiza essa parte de artes visuais no festival.”

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