Cultura

Enchente alaga depósitos, e editoras de Porto Alegre estimam perda de milhares de livros

Artes e Ofícios já fala em mudar modelo de negócios; Jambô faz campanha para ajudar funcionários

Depósito da editora L± alagado em Porto Alegre (RS)Depósito da editora L± alagado em Porto Alegre (RS) - Foto: Divulgação

Um dos carros-chefes da editora gaúcha Libretos é o livro “A enchente de 41”, do jornalista Rafael Guimaraens, que reconstituiu a história da inundação da Porto Alegre oito décadas atrás. No entanto, as cópias que ainda restavam no galpão da Libretos foram destruídas pelos alagamentos que castigam a cidade há duas semanas e já superaram o dilúvio de 1941. Diretora da Libretos, Clô Barcellos estima ter perdido quase 12 mil livros e que os prejuízos superam R$ 350 mil. A Libretos não é única. Várias editoras que mantêm depósitos na Zona Norte da capital perderam parte dos estoques.

Mario Quintana retratou enchentes de Porto Alegre em 1941: 'Época em que era absolutamente desnecessário fazer poemas'

— Fomos ao depósito no dia 2 e notamos que o chão já estava coberto por três dedos de água. Imediatamente, levamos cerca de 2 mil livros que estavam nas prateleiras mais baixas para o segundo andar para protegê-los caso a água continuasse subindo. Mas não imaginávamos que subiria tanto — recorda Barcellos. — No dia seguinte, a região estava toda embaixo d’água e interditada pela Defesa Civil.

A rua editora, no bairro Menino Deus, também alagou. Barcellos conta que precisaram sair do prédio com os computadores na cabeça, mas não conseguiram levar as máquinas do comercial e por isso estão impedidos de emitir nota fiscal. Ela culpa a falta de manutenção da infraestrutura urbana pelas enchentes.

— Mas não é culpa do rio. É a cidade que não se preparou — afirma.

Luís Fernando Araújo, editor da Artes e Ofícios, vive o mesmo drama. No dia 3, ele foi ao depósito para elevar os livros. A enchenteavançava rápido e, quando bateu no joelho, ele desistiu. Araújo espera a água baixar para contabilizar os prejuízos. Havia 107 mil livros no estoque e um comerciante vizinho avisou que tudo por lá continua alagado.

— Tenho que ver qual o foi estrago, mas acho que talvez eu precise mudar meu modelo de negócios e imprimir sob demanda. Se às vezes não tenho dinheiro para reimprimir um livro, imagina reimprimir um estoque inteiro — diz Araújo. — Quando a Saraiva e a Cultura quebraram, fiquei muito mal. Depois teve a pandemia. Agora que eu estava me recuperando, vem esse problema. Mas tenho energia e força para retomar a vida. Grave mesmo é a situação de quem perdeu casa e não tem onde ficar.

— Estamos inoperantes. Não podemos entregar livros, porque o único acesso ao depósito é de barco. A sede está menos inundada, mas ainda não conseguimos sequer entrar no depósito e nos escritórios para avaliar os prejuízos — detalha a coordenadora de marketing Vanessa Flores. — Assim como outras empresas próximas, tentamos proteger o local com sacos de areia, mas não imaginávamos uma inundação dessas proporções. Foi impossível pensar em qualquer alternativa que pudesse conter a água.

Solidariedade

Diretor-geral da Jambô, Guilherme Dei Svaldi também aguarda a água recuar para calcular os prejuízos. O escritório da editora, no Centro Histórico, ficou sem água e sem luz, mas segue seco. Já o galpão, no 4º Distrito, inundou.

— É uma área bem próxima ao rio. Quando começou a chover, fui com nosso gerente de logística para ver a situação e já pegamos água pela cintura. Talvez livros que estavam plastificados tenham se salvado. Não dá para saber. Provavelmente vamos perder dezenas ou até centenas de milhares de livros — lamenta Dei Svaldi. — O mercado editorial já é difícil por trabalhar com margens muito apertadas, a maior parte do valor fica com as livrarias e plataformas on-line. O jeito de ser sustentável é fazer tiragens maiores para diluir os custos, e aí você depende de depósitos grandes. Nossa situação é como a dos fazendeiros que perderam toda a colheita.

Dei Svaldi diz que a maior preocupação é com os funcionários que perderam tudo. A editora está organizando uma campanha solidária de pré-venda do livro de RPG “Jornada heroica: guerra artoniana” e parte da renda será revertida para trabalhadores afetados pelas enchentes.

— A editora vai sobreviver de alguma forma, mas muitos funcionários moravam nas regiões mais afetadas e não tiveram tempo de salvar nada, ou estão com parentes nessa situação. Estamos ajudando na medida das nossas possibilidades, com uma campanha de financiamento coletivo baseada neste livro, que já iríamos lançar esse mês — afirma.

As editoras que perderam seus estoques nas enchentes têm contato com a solidariedade do setor. Até o fim de maio, a Banca Tatuí, em São Paulo, vai vender livros de casas gaúchas sem cobrar comissão. Araújo, da Artes e Ofícios, espera que as livrarias caprichem na exposição dos títulos editados no Rio Grande do Sul para alavancar as vendas. Barcellos, da Libretos, afirma que o Clube de Editores do estado está mobilizado e discute ações para ajudar quem está em dificuldades. Ela conta já ter recebido mais de cem pedidos de “A enchente de 41”. O livro será impresso numa gráfica em Santa Maria e, enquanto o depósito não seca, guardado em apartamentos de amigos.

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