Literatura

'Enciclopédia Negra' descortina olhares sobre a história com biografia de 550 personalidades negras

Novo livro da Cia das Letras traz 416 verbetes de personalidades negras brasileiras em diferentes épocas da história

A ilustradora Nathalia Ferreira participou da publicaçãoA ilustradora Nathalia Ferreira participou da publicação - Foto: Divulgação

A breve biografia de Delindra Maria de Pinho, uma africana que havia chegado ao Recife no fim do século 18, aponta como as estruturas racistas operam historicamente no País. Em uma situação, suas joias e bens valiosos foram roubados por um homem branco em situação de falência, mas para provar tal ato a mulher negra livre teve de provar sua índole e lutar contra o racismo no judiciário. A história de Delindra é pouco conhecida, mas pode ser encontrada através de processos e publicações de jornais da época.

Aquela mulher negra, que se tem poucos detalhes sobre a sua vida, é uma das biografias presentes no livro “Enciclopédia Negra”, lançado hoje pelos escritores Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz, através da editora Companhia das Letras. Com base em fontes historiográficas, antropológicas, literárias, arqueológicas e sociológicas, e até por notas e matérias de jornais, a enciclopédia traz uma riqueza de personagens históricos em um novo cenário que monta a historiografia negra brasileira.

A produção chega às livrarias com a pretensão de visibilizar a história negra, com as biografias de 550 personalidades distribuídas em 416 verbetes coletivos e individuais. Segundo um dos autores, o historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Flávio dos Santos Gomes, a construção do projeto começou a partir de 2016 e só foi possível por mudanças significativas na historiografia nas últimas duas décadas.

“Era na verdade também uma pesquisa para o livro que saiu em 2018, que lancei junto com a Lilia, “Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos”. Nós tínhamos uma preocupação não só de trazer personagens que eram desconhecidos, como trazer uma representação iconográfica, em que vem aparecer mais no século 19. Fizemos pesquisa nas biografias, literatura, nas teses e dissertações só conhecidas no campo acadêmico”, explica Flávio.

Pernambuco

No livro, o autor enfatiza que há muitos personagens negros e negras que fazem parte da história pernambucana. “Pernambuco tem vários personagens incríveis. Os personagens mais antigos do livro são de Pernambuco. Um deles foi salvo de perseguição por Joaquim Nabuco nas ruas do Recife. Ele foi acusado e condenado por um crime e Nabuco acabou salvando ele. Tínhamos esse grande desafio de encontrar figuras por trás da história dos mais conhecidos. Temos também personagens interessantes de revolta, como foi o Malunguinho.”, afirma.

Um dos grandes desafios do livro foi incluir explicitar a história de personagens do cotidiano, de revolta e até religiosidade. Como o próprio Malunguinho. Ele foi um grande líder quilombola na Zona da Mata Pernambucana e hoje é reverenciado na Jurema Sagrada, religião afrobrasileira presente nos estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. “Atualmente, Malunguinho é mestre,caboclo e exu. No passado livrava da captura, agora livra da inveja e dos infortúnios”, diz o final do verbete.

 

O livro ainda traz figuras como Abdias do Nascimento, Dandara, Tereza de Benguela, Aqualtune, Marielle Franco, entre figuras durante e pós-escravidão. Além da produção, haverá uma exposição daqueles que não possuía imagens em obras de 36 artistas negros, negras e não-binários na Pinacoteca de São Paulo, a partir de 10 de abril.

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