Entrevista: Amir Haddad, um ícone marcado pela resiliência

Dos maiores nomes do teatro brasileiro, diretor e ator mineiro vem ao Recife, neste sábado, para conferência durante o festival Transborda, do Sesc

Amir Haddad, diretor de teatro Amir Haddad, diretor de teatro  - Foto: Divulgação

Várias gerações de atores passaram pelas mãos experientes de Amir Haddad, desde Fernanda Montenegro a Tonico Pereira, Renata Sorrah, Adriana Esteves e muitos outros. Uma das grandes referências do teatro brasileiro, o diretor participou da fundação do Teatro Oficina ao lado de Zé Celso, em 1958, e, desde 1980, comanda o grupo teatral Tá na Rua, no Rio de Janeiro.

Neste sábado (21), às 17h, ele apresenta a conferência "Teatro e rua: apontamentos de uma origem comum", no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, dentro da programação da mostra cênica Transborda, do Sesc Santa Rita. Nesta entrevista à Folha de Pernambuco, o artista mineiro de 82 anos de idade descarta a aposentadoria e reafirma seu tesão pela arte de encenar. "Vai ser difícil fechar meu caixão, vou morrer de pau duro", dispara.

O teatro e a rua

O teatro nasceu no espaço público, mas ele pode e deve estar em todo e qualquer lugar. A "essência da rua" é o sentido público que toda arte deve ter. Arte é obra pública produzida por particular em todo e qualquer lugar, sem distinção de nenhuma espécie, para toda e qualquer pessoa. É sempre política a ideia de que arte, por ser pública, não se vende nem se compra, mas se realiza no encontro do artista e/ou sua obra com a cidade, sem ideia de remuneração ou mercado. Assim como é sempre política a ideia de "mercado das artes". Toda arte é e deve ser resistência política. Mesmo quando o artista não tenha intenção.

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Amir Haddad, ao lado de Fernanda Montenegro e Andréa Beltrão, atrizes que já dirigiu no teatro

Amir Haddad, ao lado de Fernanda Montenegro e Andréa Beltrão, atrizes que já dirigiu no teatro - Crédito: Reprodução/Instagram



Teatro brasileiro contemporâneo

No Brasil, ainda se faz muito teatro. Nós precisamos esquecer o que é isto - o teatro - para fazermos bom teatro, vivo e transformador. Mas não se pode pedir ao mercado que tenha esta tendência transformadora. O mercado é conservador. Eu sou um bom preparador de atores, mas preparo atores que sejam capazes de transformar o mercado e não servir a ele. Como vocês podem ver, eu tenho uma certa implicância com esta questão mercadológica. É que eu acho que não se pode vender o que temos de melhor para dar. E no mundo de hoje a gente vende até a própria mãe. Por isso fui para as ruas, para me livrar do mercado, dos produtos, da bilheteria e da arrogância do público pagador, que com todo direito quer fazer valer a força do seu dinheiro. Na rua, estou livre de mercado e do público uniforme com suas mesmas características, gostos, idiossincrasias e preconceitos ideológicos. Na rua, as pessoas se misturam, diversificam, a plateia fica heterogênea como era na Grécia, com Shakespeare, com Molière e como Brecht queria que fosse sua plateia.

Repressão às artes

A censura sempre rondou as artes e os artistas. Mesmo nos melhores momentos políticos somos ou estivemos ameaçados. Não é a arte que incomoda, mas a liberdade. É o que não pode faltar ao artista de jeito nenhum. Às vezes, ele mesmo se censura. Falta-lhe liberdade pessoal para viver seus sonhos, delírios, fantasias e criatividade. Sem liberdade não há criação. O teatro me ensinou isso e tudo o mais que eu sei da vida e das artes.

Sem arrependimentos

Meus mais de sessenta anos dedicados ao teatro me confirmam dia a dia que era isso mesmo que eu queria fazer. Nunca fiz outra coisa na vida a não ser teatro e sempre fiz do jeito que eu queria fazê-lo. O meu teatro, que acho que é o de todos, porque é feito nas ruas para todas as pessoas e invade os palcos com a liberdade das ruas. Não posso nunca parar de trabalhar, mesmo que fosse milionário. O teatro é o que me faz ficar vivo. Tenho tantos sonhos e projetos que pareço um adolescente. Tomara que dê tempo. Mas sei que nunca vai dar, graças a Deus.

 

Amir Haddad em cena no espetáculo

Amir Haddad em cena no espetáculo "Assim falava Zaratustra" - Crédito: Rodrigo Ricordi/Reprodução/Facebook

 

 

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