'Escravidão' retrata como a sociedade brasileira se estruturou

Primeiro volume de trilogia destaca fatos históricos ocorridos na Àfrica e em Pernambuco, onde a escravidão começou a ser implementada

A escravidão vista pelo artista francês Jean-Baptiste DebretA escravidão vista pelo artista francês Jean-Baptiste Debret - Foto: Divulgação

A escravidão não é um assunto de museu, congelado no tempo. Ao contrário: determina a forma como a sociedade brasileira funciona, ainda hoje. O Brasil é o segundo país com mais negros no mundo, perdendo apenas para a africana Nigéria; para cá, foram trazidos quase cinco milhões de cativos ao longo de três séculos de exploração, o que nos deixou o triste título de maior território escravista do hemisfério ocidental. O autor é o mesmo dos best-sellers “1808”, “1822” e “1889”.

Quase metade dos escravos que chegaram às Américas vieram para o Brasil, e nós fomos o país que mais resistiu ao fim do tráfico negreiro e à abolição da escravidão. Todo esse legado nefasto e suas influências posteriores fazem com que o tema 'escravidão' seja um dos assuntos mais estudados não só aqui, mas em todo mundo. Ainda assim, o lançamento do primeiro volume de "Escravidão", de Laurentino Gomes (Globo Livros, 480p., R$ 49,90) é uma contribuição importantíssima, que preenche um vácuo que persistia, apesar da profusão de obras sobre o tema.

Capa do primeiro volume da trilogia 'Escravidão', de Laurentino Gomes

Capa do primeiro volume da trilogia 'Escravidão', de Laurentino Gomes - Crédito: Divulgação

  Fruto de uma pesquisa que levou mais de seis anos, o volume integra uma trilogia que deverá ser complementada por lançamentos em 2020 e 2021. Este primeiro tomo cobre o período compreendido entre o início dos leilões de cativos, em Portugal (1444) e a morte do líder negro Zumbi dos Palmares (1695). Em reportagem à Folha de Pernambuco, Laurentino Gomes destaca que os cenários principais do livro que está sendo lançado são a África e Pernambuco.

"Li cerca de 200 livros sobre o tema, e depois botei o pé na estrada. Fui visitar os locais onde as coisas aconteceram. Viajei por 12 países, oito deles na África, e viajei por várias regiões brasileiras, especialmente o Nordeste, que foi o berço dessa história", relembra. Já o segundo volume deve trazer mais informações sobre a Bahia e Minas Gerais, e o terceiro, sobre o Rio de Janeiro e São Paulo. "Pernambuco foi onde a escravidão em si foi implementada, logo após a chegada de Cabral, porque foi a capitania hereditária de maior sucesso econômico, no começo da civilização brasileira", aponta.

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Depois disso, o modelo mercantil foi ampliado para outros locais, fazendo com que todos os nossos ciclos econômicos importantes, desde o pau brasil até o café, passando pelo açúcar, ouro, diamante, tabaco e algodão, fossem sustentados por mão de obra cativa. Entre os locais visitados por Laurentino em Pernambuco, estão tanto a usina onde foi morto Ganga Zumba, tio de Zumbi, como o engenho onde viveu o abolicionista Conselheiro João Alfredo, que redigiu a Lei Áurea.

Laurentino Gomes levou mais de seis anos para realizar pesquisa sobre escravidão

Laurentino Gomes levou mais de seis anos para realizar pesquisa sobre escravidão - Crédito: Vilma Slomp/Divulgação

  "Não dá para entender o Brasil sem observar e analisar a escravidão", pontua o autor. "Tudo o que nós fomos no passado, que nós somos hoje e que seremos no futuro tem a ver com as nossas raízes africanas. Mas não apenas com a história dessas raízes, e sim com a maneira como nós nos relacionamos com elas", aponta.

Laurentino ressalta que existe um legado da escravidão que se perpetua até hoje, e está presente nas estatísticas que mostram uma crise de oportunidades entre os brasileiros descendentes de africanos. "Quando a gente fala de exclusão, de desigualdade social, estamos falando basicamente de herança da escravidão", destaca. Outro aspecto lamentável é o preconceito racial. "Nós camuflamos o passado na forma de alguns mitos, por exemplo, o que dizia que a escravidão brasileira teria sido mais benévola, como se no Brasil funcionasse uma democracia racial única no mundo. E isso não é verdade, o brasileiro é extremamente preconceituoso. Esse é um traço muito profundo em nossa identidade".

Laurentino Gomes diz que espera, com seus livros, ajudar a entender a escravidão e colocar um traço de racionalidade nessa discussão que é mais atual do que nunca. "A escravidão hoje define votos. Esse tema foi importante na campanha eleitoral do ano passado, com um candidato chegando a dizer que os portugueses nunca tinham entrado na África. Isso resulta em certos projetos políticos que estão sendo implementados no Brasil numa velocidade muito rápida", lamenta. 

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