Escritos da raça negra

Seja qual for o momento histórico, autores negros sempre estiveram traçando ideias e enfrentando o limbo social

Luciana Santos (PCdoB)Luciana Santos (PCdoB) - Foto: Divulgação

 

Das 11 obras que Cidinha Silva publicou em 10 anos dedicados à literatura, todas estão ligadas à sua condição de escritora negra. “Ser uma mulher negra me define no mundo. Eu seria uma mulher negra gari, médica, professora universitária, lavadeira, empregada doméstica, juíza, jornalista, mas sou uma mulher negra escritora”, diz. A forte afirmação dessa identidade, a denúncia de suas condições históricas e sociais e seu posicionamento estão entre as características mais importantes da literatura afro-brasileira, oportunamente lembrada hoje, Dia da Consciência Negra. Oportunamente e em tempo: o maior escritor brasileiro, Machado de Assis era mulato e foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mantém o projeto Literafro - coordenado pelo professor Eduardo Duarte, especialista no assunto -, cujo objetivo maior é resgatar essa produção literária. Ele explica que esse “nicho” literário “esteve presente em todos os momentos relevantes de nossas letras”, mas sem que tivesse o mesmo reconhecimento de outros. Para os pesquisadores, o histórico afrodescendente na literatura brasileira provoca, entre outros problemas, o desconhecimento público, a pouquíssima existência da reflexão acerca das questões teóricas que a envolve, entre outras celeumas. Noutras palavras, essa literatura está num limbo que esconde escritores, suas descendências, seus históricos.

Há a produção consciente de seu papel no posicionamento do negro. Cidinha, enquanto agente desse “nicho”, reconhece que o papel da literatura afro-brasileira vai além do combate implacável ao racismo e suas manifestações pelas letras, é também da sua competência o papel de “promover a humanidade, as visões de mundo, as escolhas estéticas de escritoras e escritores negros”. Ela mesma vaga por onde bem entende. Tem seus livros “de combate” - “Racismo no Brasil e afetos correlatos” (2013) e “#Paremdenosmatar” (2016), que focam no racismo e em seu enfrentamento - e outros mergulhados em sua africanidade, três infantojuvenis, o “Canções de amor e dengo” (de poemas), além da organização de “Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras” (2003) e “Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil” (2014). “Escrevo, ponho o livro na roda e faço a roda girar. Esse tem sido meu método de trabalho. O primeiro impulso para que depois os livros caminhem sozinhos”, diz.

Mas nem sempre a temática é direta, posta para bater em questões nas quais o negro é colocado, mas lidar com assuntos afins, de periferia, do preconceito social, que não são necessariamente (embora maciçamente) negras. “Meus poemas denunciam a injustiça humana, minha raiz literária não tem cor. Aliás, até tem, quando eu digo ‘tá indo pra onde, boy?/ não tô indo, tô voltando’ (e desce o “baculejo”) ou quando digo que ‘mataram mais um no Coque, que mataram uma mulher em Casa Amarela’”, explica o poeta Miró da Muribeca, justificando que não é um direcionamento consciente, mas inerente. Pessoalmente, ele diz que os casos em que sofreu racismo foram pouquíssimos e que talvez por isso não aprofunde a temática nessa direção. “Quando jovem, fui ‘adotado’ por uma classe média que não era burra, que não ‘expulsava os negros para construir seus arranha-céus’. Mas falar da periferia, da discriminação social, é falar de nós, negros”.

Alguns autores
Como disse Duarte, o negro sempre foi da literatura. Assim como Machado Assis, Lima Barreto é outro desbravador. “A contribuição de Machado se deu essencialmente pelo aspecto estético. Lima Barreto, além da contribuição via estética literária, viveu a perseguição e a destruição que o racismo impõe a nós, negros, que nos insurgimos contra os lugares de subalternidade que o racismo nos destina”, comenta Cidinha. Elegendo Ana Maria Gonçalves como a “melhor” escritora que já leu - “de apuro estético e domínio da palavra inspiradores também” -, cita ainda Carolina Maria de Jesus. “Ela queria publicar suas crônicas, poemas, romances, contos. Esse exemplo me inspira muito, uma mulher negra, catadora de material reciclável e moradora de favela nos anos 1960 e que tinha um projeto literário. Isso é encantador”.

 

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