Fechamento do Belas Artes seria 'mais uma tragédia' na cultura, dizem artistas e frequentadores

Situado na esquina da avenida Paulista com a rua da Consolação, o Belas Artes é celebrado por público e crítica pela curadoria diversificada

Fachada do Cine Belas Artes Fachada do Cine Belas Artes  - Foto: Reprodução/Google Street View

Diretores, artistas e frequentadores assíduos do Cine Belas Artes reagiram com pesar e assombro diante da perspectiva que o cinema de rua paulistano tenha de fechar as portas em dois meses. Conforme antecipado pela Folha de S.Paulo, a Caixa Econômica Federal notificou o espaço em janeiro solicitando o fim da exibição da marca, no que pode ser o primeiro grande corte do banco estatal sob a gestão Bolsonaro.

Ex-secretário municipal de Cultura e dono do cinema, André Sturm diz ter acertado com o proprietário do imóvel um prazo de dois meses para achar um novo patrocinador. Ali funcionam as seis salas do cinema, inaugurado com este nome em 1967; o aluguel custa quase R$ 2 milhões ao ano. "Se fechar, é mais uma tragédia no cenário cultural de São Paulo e do Brasil", resume Sérgio Rizzo, 53, jornalista, crítico e professor que frequenta o Belas Artes ao menos uma vez por mês e, naquele local, teve uma espécie de escola.

"Ele se inscreve em um momento rico da minha formação. Foi a sala em que, durante a adolescência, mais assisti filmes 'de autor', 'de arte'. Títulos como 'Meu Tio da América', do Alain Resnais; lembro de sair na avenida Paulista extasiado, pensando 'O que foi isso?'. Foram momentos muito ricos." Rizzo associa as críticas na linha de "dinheiro público tem que ser investido em outras prioridades" à ignorância a respeito dos orçamentos públicos e do potencial econômico do setor cultural.

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"Em geral, as pessoas que falam isso têm muito pouco conhecimento da economia da cultura. Não sabem que cultura gera emprego. Os trabalhadores da área sentem isso na pele, alimentam suas famílias com cultura."

Crítico e professor de cinema, Rizzo lamenta ainda o que vê como insignificância do valor do patrocínio frente aos recursos da Caixa Econômica Federal -"estamos falando de mixaria, não vai ser R$ 1,8 milhão tirado do Belas Artes e realocado na educação que vai fazer diferença"- e contextualiza o corte no contexto das promessas de campanha do presidente Jair Bolsonaro.

"De certa forma, o fim do patrocínio era previsível. É um governo obscurantista em vários aspectos, e obscurantistas tendem a não gostar de ciência e de cultura. No atual cenário econômico, temo que seja muito difícil arrumar outro patrocinador; tomara que apareça."

"Tomei um susto", diz o professor baiano Fabio Ornelas, 38, que frequenta o lugar pelo menos uma vez por mês há dez anos, desde que se mudou para São Paulo. "Achei que a situação estivesse estabilizada e que pudéssemos contar com esse patrocínio por bastante tempo." Para a sua graduação no curso de comunicação, ele rodou um documentário, "Belas Artes: A Esquina do Cinema", que tratava das manifestações que ocorreram em prol da reabertura do cinema, em 2014.

Ornelas afirma que pretende participar de novos atos contra o fechamento, se eles ocorrerem. "Quem gosta de cultura não tem como não valorizar aquele espaço", diz.
O funcionário público Gleison Nascimento, 25, é um dos que já começaram a mobilização, pelo menos nas redes sociais. "Quero incentivar as pessoas a postarem fotos de suas memórias afetivas no lugar", diz.

O Belas Artes tem um significado especial para ele. Foi ali que foi realizado, um ano atrás, o primeiro encontro do Vamos ao Cinema Juntos, projeto capitaneado por ele que organiza idas em grupo aos cinemas da cidade seguidas por conversas sobre o filme em bares ou cafés. Hoje, diz, até 50 pessoas chegam a participar desses passeios, dependendo do filme.

"É uma notícia horrível", diz Ivam Cabral. Ele e Rodolfo García Vázquez são os fundadores do grupo teatral Os Satyros e diretores do filme "A Filosofia na Alcova", que ficou por mais de 63 semanas em cartaz naquele cinema. "Só o Belas Artes poderia fazer com que filmes como os nossos fossem exibidos."

Cabral diz que não há outro espaço no Brasil em que produtores cinematográficos tenham a mesma acolhida por parte de exibidores. "Mais do que o fechamento de um espaço, isso significaria o fechamento de uma ideia muito particular de exibição."
A cineasta Marina Person faz coro. "É mais um golpe na nossa tão sofrida cultura brasileira", diz.

"Isso, claro, é reflexo do governo Bolsonaro, a quem não interessa que as pessoas tenham cultura e educação, que possam refletir e questionar sobre atrocidades cometidas por esse governo", diz. "Poderia ter acontecido num outro momento? Sim, mas agora vejo como uma ação muito certeira em relação à classe cultural como um todo."

O Belas Artes trabalha com duas modalidades de fidelização de seus frequentadores. O pacote chamado Cinéfilo, que custa R$ 800 ao ano, garante vantagens como uma entrada franca por semana; já o Sócio permite descontos em estabelecimentos associados, cadeira personalizada com o nome, entre outros benefícios, sob uma anuidade de R$ 3.000.

Dono do Belas Artes, Sturm afirma já manter contatos com marcas interessadas que prefere não mencionar. Situado na esquina da avenida Paulista com a rua da Consolação, o Belas Artes é celebrado por público e crítica pela curadoria diversificada -na comparação com o cardápio das redes que dominam os shopping centers, modelo de exibição predominante no país, o local exibe mais filmes, por mais tempo e com mais atenção à produção nacional.

O local também é notório por promover séries especiais dedicadas a cineastas e filmes clássicos, como as mostras em homenagem a Cacá Diegues e a Grande Otelo, em 2017 e 2018, e a exposição de longas do diretor russo Andrei Tarkovski, em 2018.
O encerramento do patrocínio da Caixa é um novo capítulo na história recente de resistência do Belas Artes.

O local ficou fechado de 2011 a 2014, quando foi reaberto sob a bandeira da Caixa, após grande mobilização de políticos e sociedade civil, incluindo um Movimento Cine Belas Artes. O cinema foi escolhido o de melhor atendimento pelo público ouvido pelo Datafolha na mais recente avaliação do Guia Folha.

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