Fedora do Rego Monteiro: uma artista em busca de reconhecimento

Uma das fundadoras da Escola de Belas Artes do Recife, Fedora, a irmã mais velha de Vicente, Joaquim e Débora, não alcançou tanta notoriedade nas artes visuais

Carlos Ranulpho, marchandCarlos Ranulpho, marchand - Foto: Henrique Genecy/Folha de Pernambuco

É difícil ver algo que não está ali, notar uma ausência. Geralmente, só quando um outro aponta é que cai a ficha. Cite os nomes de todas as escritoras que você leu no último ano. Agora de todos os autores. Sente a diferença? Isso se aplica a várias esferas, mas nas artes plásticas há um exemplo gritante: Fedora do Rego Monteiro Fernandes. Irmã mais velha de Vicente, Joaquim e Débora.

Na família todos se dedicaram de alguma forma à arte, mas a fama ficou reservada aos homens, embora eles tenham sido influenciados pelas aulas de pintura que Fédora recebia em casa, do artista Louis Piereck.

Débora seguiu o caminho das letras, e apesar do sobrenome de peso, por vezes é esquecida como parte da família. Joaquim morreu muito jovem, aos 31 anos, quando estava em Paris.

A família havia se mudado para França em 1911, e desde então os irmãos mantiveram contato com a efervescência da Belle Epóque e da aglutinação de artistas que a capital francesa mantinha. Cada qual manteve seu estilo, mas se um dos irmãos é citado com facilidade, nem tanto se sabe sobre a primogênita.

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“Estudando textos e documentos da época, verificamos que na maioria das ações das quais participou, ela não é citada ou, quando o é, sempre aparece em posição menos importante que a dos personagens masculinos que constam nas mesmas ações”, revela um excerto de enciclopédia recém-lançada pela pesquisadora em artes visuais, Madalena Zaccara.

Artista plástica, Clarissa Generino Duarte teve como tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) “Fedora do Rego Monteiro Fernandes e possíveis implicações na formação de professores de Artes Visuais”.

“Eu nunca tinha me dado conta de que não existiam mulheres ou que elas não tinham as mesmas oportunidades que os homens artistas, acho que foi naturalizado, de alguma forma, em mim, não perceber ou não questionar a presença de mulheres em muitas esferas da sociedade. Até me espantei por descobrir minha total falta de conhecimento sobre mulheres nas artes”, confessa Duarte.

“Acredito que Fedora, apesar das limitações por ser mulher (naquela época), ainda teve oportunidades que outras artistas pernambucanas não tiveram, como ir estudar artes na Academia de Belas Artes, no Rio de Janeiro e também estudar na França, na Academie Julian”, ressalta a artista.

“Fédora deixou uma obra bastante consolidada. Foi uma artista com uma trajetória muito importante, fez parte do grupo de pintores como Baltazar da Câmara, Mário Nunes e outros na fundação da Escola de Belas Artes de Pernambuco”, rememora o marchand Carlos Ranulpho, um dor principais divulgadores de obras da família Rego Monteiro, da qual é próximo desde 1969.

Fedora foi uma das fundadoras da Escola de Belas Artes do Recife (Ebar), que participou das duas exposições dos Independentes aqui no Recife, diversas outras e ganhou medalhas, mas pouco se escuta o nome dela.

Assim, Clarissa Duarte questiona: “Por que razão uma mulher tão presente no cenário artístico pernambucano, brasileiro e mundial é pouco citada? Apesar de ser uma das fundadoras da Escola de Belas Artes do Recife nunca assumiu cargos de direção da Ebar. Uma mulher que foi tão presente nas artes, a meu ver, não merecia apenas trechos de artigos de jornal”. Aos poucos, vai se reescrevendo a história.

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