Festival Ressonância estreia em Olinda com três dias dedicados à percussão
Evento gratuito ocupa o Sítio Histórico entre os dias 9 e 11 de abril, com atividades formativas e shows que celebram tradição e experimentação
Desta quinta (9) a sábado (11), Olinda vibrará na pulsação das peles e tambores, com a primeira edição do Ressonância – Festival Internacional de Percussão do Brasil, encontro internacional que coloca a percussão no centro da cena.
Gratuito, o evento costura dois dias de oficinas e masterclasses a uma noite de shows na Praça do Carmo, reunindo artistas do Brasil e de outros cantos da América Latina.
Idealizado pelo produtor e curador Antonio Gutierrez, o Gutie, o festival nasce do desejo de amplificar um som que sempre esteve ali, mas nem sempre como protagonista.
“O Ressonância foi concebido para ocupar uma lacuna de eventos de percussão no Brasil”, diz. Para ele, é quase um ajuste de rota: trazer às luzes uma linguagem que sustenta a música brasileira desde sempre, mas que raramente ocupa o palco principal.
Passarão pelo Ressonância, em sua estreia, nomes como Cordel do Fogo Encantado (PE), Aguidavi do Jêje (BA), Duo Repercuti (PE), Lobo Núñez (Uruguai) e Alibombo y Los Sopladores (Colômbia + PE).
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Pernambuco no centro da percussão
Não poderia ser em outro lugar: com forte tradição rítmica e ligação histórica com manifestações culturais afro-brasileiras, Pernambuco se consolida como território simbólico para a estreia do Ressonância.
“Eu sempre percebi a necessidade de um festival de música percussiva com relevância. Um lugar como Pernambuco, Olinda, que tem essa força rítmica, pedia isso”, afirma Gutie.
Outro evento que valorizava a música percussiva feita no Brasil e no mundo, o Panorama Percussivo Mundial (PercPan) – criado na Bahia, em 1994, pela produtora Beth Cayres – teve uma edição realizada em Pernambuco, em 2001, com shows no Marco Zero, no Recife.
Troca de saberes
Antes dos palcos, o som nasce no encontro. Nesta quinta (9) e sexta (10), a Casa Estação da Luz se transforma em espaço de escuta, aprendizado e partilha com as oficinas e masterclasses apresentadas pelo Ressonância. Na programação, os convidados irão abordar técnica, memória e invenção.
Neste primeiro dia, Nêgo Henrique (do Cordel do Fogo Encantado) ministra, às 9h, a oficina “Batukeje - Ritmos do Candomblé”, e às 18h, Lobo Núñez abre caminhos pelo candombe e suas raízes afro-uruguaias.
Na sexta (10), às 9h, o pernambucano Nino Alves propõe experimentar o som a partir do corpo e de objetos na oficina “Percussão - Despertar Criativo”; e às 18h, Patrícia Vasconcelos conduz a masterclass “Naná por Vasconcelos”, atravessando obra e pensamento do pernambucano eleito oito vezes melhor percussionista da mundo.
Para Gutie, esse espaço é chave. “É um evento de nicho, mas que entrega um conteúdo diferente, que pode despertar nas pessoas um olhar menos óbvio para uma música que está no cotidiano”, diz.
Shows celebram tradição e experimentação
No sábado (11), a Praça do Carmo vira palco para uma travessia sonora. A partir das 16h – com trabalhos abertos e intervalos por DJ Sidade –, uma série de shows terá a percussão como protagonista.
É quando o festival vira rito, pista, terreiro e palco ao mesmo tempo. “É um festival afrodiaspórico, que conecta Brasil, América Latina e novas gerações”, resume Gutie.
Cordel do Fogo Encantado fará show baseado no seu primeiro álbum, de 2001 | Foto: José de Holanda/DivulgaçãoEntre os momentos mais esperados, está o show do Cordel do Fogo Encantado, referência incontornável da cena musical brasileira, que cruza teatro, música e poesia em uma linguagem própria.
No Ressonância, o grupo revisitará, na íntegra, seu primeiro álbum, homônimo, de 2001. Sob as bênçãos espirituais de Naná Vasconcelos – que produziu o disco —, o grupo retoma o roteiro, cenário e a mística que os consagrou, com canções como “Chover”, “Os Oím do Meu Amor”, “Antes dos Mouros”, “Pedrinha” e outras.
Ancorando tudo em uma dimensão espiritual e criativa, o grupo baiano Aguidavi do Jêje ergue sua arquitetura sonora a partir do Terreiro do Bogum, em Salvador (BA), traduzindo os toques do candomblé Jeje-Mahin em linguagem contemporânea.
Liderado por Luizinho do Jêje, ogã da casa, o grupo que já acumula duas décadas de trajetória, entrelaça atabaques, instrumentos autorais e elementos eletrônicos em arranjos que equilibram rigor ritual e abertura estética.
Em, 2024, eles lançaram o álbum “Aguidavi do Jêje”, que foi indicado ao Grammy Latino. O disco conta com a participação do padrinho artístico Gilberto Gil “É o sagrado em movimento, sem perder a raiz”, resume Gutie.
Diretamente do Terreiro do Bogum, em Salvador (BA), o grupo Aguidavi do Jêje traduz os toques do candomblé Jeje-Mahin em linguagem contemporânea | Foto: Rodrigo Bressani/DivulgaçãoDe outro ponto do mapa, mas na mesma frequência ancestral, “a lenda” Lobo Núñez desembarca com a força do candombe uruguaio — manifestação afro-latino-americana reconhecida como patrimônio cultural da Humanidade pela Unesco.
O percussionista e luthier carrega décadas de trajetória internacional e apresentará um show que evidencia a potência da força ancestral dos três tambores fundamentais da tradição do candombe – chico, repique e piano – em uma experiência profundamente conectada às matrizes da música latino-americana.
Da Colômbia, o projeto Alibombo y Los Sopladores atravessa fronteiras sonoras ao transformar o improvável em pulsação. Idealizado por David Colorado Uribe, o espetáculo nasce de um laboratório inventivo onde engrenagens ganham ritmo: rodas de bicicleta giram como tambores, objetos cotidianos são ressignificados e dispositivos artesanais se convertem em instrumentos. Tudo passa por camadas de amplificação e manipulação, criando uma paisagem sonora que tensiona matéria e música.
Escreva a legenda aqui DJ Sidade discotecará na abertura e nos intervalos entre os shows do festival | Foto: Lara Valença/DivulgaçãoA essa arquitetura ruidosa e poética se junta o coletivo Los Sopladores, que é formado por músicos locais por onde o projeto passa.
Sob a condução de Parrô Mello, um sexteto de sopros – trompetes, trombones e saxofones – formado por músicos de Pernambuco, expande o gesto percussivo para um corpo coletivo. São eles e elas: Fabinho Costa, Cintya Cibele, Fabiana Dias, Nilsinho Amarantes e Neris Rodrigues
O duo Repercuti emerge como laboratório sonoro, destacando um trabalho com a percussão afrossinfônica, em um diálogo que envolve instrumentos de concerto – como marimba e vibrafone – e sonoridades afro-brasileiras.
A apresentação ganhará ainda mais potência com a participação de Nino Alves, que soma camadas à experiência e amplia o diálogo sugerido pelo duo.
SERVIÇO
Ressonância - Festival Internacional de Percussão do Brasil
Quando: quinta (9) e sexta (10) - oficinas e masterclasses // sábado (11) - shows musicais
Evento gratuito
Instagram: @ressonanciabrasil
PROGRAMAÇÃO
Oficinas e masterclasses
Onde: Casa Estação da Luz - R. Prudente de Morais, 313 - Carmo, Olinda - PE
Quinta (9)
9h | [OFICINA] "Batukeje - Ritmos do Candomblé", com Nêgo Henrique
18h | [MASTERCLASS] "Candombe: Folclore Afro-uruguaio", com Lobo Núñez
Sexta (10)
9h | [OFICINA] "Percussão - Despertar Criativo", com Nino Alves
18h [MASTERCLASS] "Naná por Vasconcelos", com Patrícia Vasconcelos
PROGRAMAÇÃO
Shows
Onde: Praça do Carmo - Carmo - Olinda-PE
Sábado (11), a partir das 16h
DJ Sidade (abertura e intervalos)
Lobo Núñez (Uruguai)
Alibombo y Los Sopradores (Colômbia + PE)
Aguidavi do Jêje (BA)
Repercuti (PE)
Cordel do Fogo Encantado

