Filme da Mongólia sobre ovo de dinossauro conquista crítica em Berlim

Entre os exibidos até o momento, a produção asiática larga na frente, superando o francês François Ozon

Cena do filme 'Öndög'Cena do filme 'Öndög' - Foto: BERLIN FILM FESTIVAL

Um filme da Mongólia, lotado de cenas pastorais rodadas na vastidão das estepes, tem se provado o favorito da crítica entre os longas que competem ao Urso de Ouro no Festival de Berlim.

"Öndög", que pode ser traduzido para o português como "ovo", é uma divagação sobre vida e morte do diretor chinês Quan'an Wang e recebeu a nota mais alta até agora do júri promovido pela revista Screen. Durante as principais mostras de cinema, a publicação convida jornalistas do mundo inteiro para darem nota aos longas das competições. Entre os exibidos até o momento, a produção asiática larga na frente, superando o francês François Ozon ("Grâce à Dieu"), por exemplo.

Mas de que trata "Öndög", afinal? A história irrompe assim que o corpo nu de uma mulher é encontrado no meio de uma pradaria por onde só transitam cavalos selvagens e lobos. O mais incauto dos policiais é coagido por seus chefes a vigiar o cadáver durante a noite gelada até que os legistas possam recolhê-lo. Para ajudá-lo na vigília, eles recorrem a uma pastora de ovelhas que anda por ali no lombo de um camelo.

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A primeira centelha de curiosidade que o filme desperta tem a ver com os modos de vida registrados quase que documentalmente pelo diretor. O lugar é um rincão inóspito no interior da Mongólia. Ali, pastores vivem nas "yurt", as tendas circulares das estepes, e mantêm estilo de vida com poucos sinais de modernidade.

Quando surgem elementos mais tecnológicos, aliás, a intenção é de arrancar humor a partir do estranhamento, do deslocado. É o caso de quando a pastora usa o celular para pedir ajuda a um amigo na hora de sacrificar uma ovelha para o jantar ou quando o policial dança ao som de "Love Me Tender", de Elvis Presley.

Ao longo da história, os dois personagens principais deparam com questões sobre a natureza da existência, da morte e o surgimento do amor -tudo decorrente daquela noite em que precisam vigiar o corpo misterioso. Ovos de dinossauro são comumente encontrados naquele país e dão as caras à certa altura do enredo, tanto de forma física quanto metafórica (encapsulando a ideia de princípio da vida).

Quan'an, que ganhou o Urso de Ouro em 2007 por "O Casamento de Tuya", outra história ambientada na Mongólia, apela para o mesmo truque: conquistar o olhar ocidental, interessado em abordagens antropológicas, por meio do exotismo. E dá-lhe tomadas panorâmicas, e um tanto modorrentas, para incrementar a ideia de quão amplas são as paragens do país, ou cenas de animais abatidos ou dando à luz.

A sensação do inóspito também move "Out Stealing Horses", outro filme em competição -mas dessa vez muito mais próximo do ponto de vista ocidental.
O norueguês Hans Peter Moland torna a escalar Stellan Skarsgard, agora numa trama sobre Trond, viúvo que decide se mudar para um canto pouco habitado da Suécia. Às vésperas do fim de 1999, o sujeito aguarda a chegada do novo milênio com um misto de cinismo, mas um desejo de purgar as dores.

Mas a intenção de se curar da perda acaba, na verdade, reativando memórias de outra época, graças a um encontro inusitado. Vêm à tona, então, lembranças de sua relação conturbada com o pai, permeada por culpa, rancor e rivalidade.

O passado de Trond é remoído por meio de flashbacks. Descobre-se que, aos 15 anos, ele passou as férias de verão com seu pai, no interior da Noruega. Enquanto sua sexualidade aflora, ele é testemunha de eventos traumáticos que ocorrem com os vizinhos e que acabam reverberando em sua casa.

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