Filme 'Polícia Federal' relata Operação Lava Jato sem nuances, nem vozes dissonantes

Produção nacional estreia no dia 7 de setembro nas salas de cinema do País

Marcelo Serrado interpreta Sérgio MoroMarcelo Serrado interpreta Sérgio Moro - Foto: Downtown Filmes/Divulgação

Antes de analisar um filme como "Polícia Federal: a lei é para todos" é preciso respirar fundo para evitar se perder em uma discussão política e partidária. Esse debate naturalmente faz parte do filme, por citar o ex-presidente Lula (interpretado por Ary Fontoura) e o juiz federal Sérgio Moro (Marcelo Serrado), as investigações da Operação Lava Jato e o processo de convulsão social que o país vive nos últimos anos, mas é preciso também refletir sobre o que constitui o filme enquanto peça de cinema. O longa estreia no dia 7 de setembro.

É difícil ver algum mérito no filme enquanto obra de ação, investigação policial e thriller político, gêneros que o longa-metragem dirigido por Marcelo Antunez se aproxima. Muitas cenas são compostas por pesquisas em arquivos, pastas de computador, celulares, planilhas de Excel e e-mail, nada que pareça remotamente interessante em uma narrativa de ficção. As pequenas decisões que tornam os filmes desses gêneros intrigantes parecem não existir: a montagem é engessada e pragmática, as viradas do roteiro são pouco criativas.

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O filme, baseado em um livro de mesmo nome, detalha a investigação sobre os esquemas de corrupção, lavagem de dinheiro e pagamento de propinas. Como indica o título, a perspectiva é a da Polícia Federal, que naturalmente pende para um lado específico. Ivan (Antonio Calloni) e Julio (Bruce Gomlevsky) são os personagens com mais tempo e espaço para desenvolvimento. Ivan pondera sobre quem as ações da PF estão realmente ajudando, no momento mais lúcido do filme, enquanto Julio representa a explosão emocional diante das desilusões políticas.

O ponto mais delicado do filme é a representação de Sérgio Moro e Luís Inácio Lula da Silva. Quando vemos um Moro contido e ponderado, lúcido e intelectual, e um Lula arruaceiro e desbocado, bruto em seus modos e agressivo de um jeito irracional, parece sensato refletir qual a posição proposta pelo filme. As atuações apenas reforçam essas emoções imediatas e geralmente caricatas: Serrado é visto uma grande quantidade de vezes apenas olhando para o vazio e pensando, franzindo o cenho e pensando, colocando o punho sob o queixo e pensando, enquanto Fontoura parece levemente descabelado e histérico, gritando e ameaçando policiais educados que nada fizeram além de levá-lo para pegar seu depoimento.

A ausência de vozes dissonantes e outros políticos investigados, a representação da nossa realidade recente sem apontar para as contradições e os equívocos, tornam "Polícia Federal" um filme que ignora as bases da corrupção e evita confrontar a essência de um sistema que permite uma quantidade tão impressionante de políticos corruptos.

É um momento delicado demais para um filme com uma proposta com tantas ideias desiguais e polêmicas. Embora o enredo trate de um assunto que precisa ser discutido, a execução ressalta problemas graves. Nesse sentido, "Tropa de Elite 2" segue como um filme bem sucedido e equilibrado enquanto obra de ação e thriller político, peça contundente sobre absurdos do Brasil atual, composto por tudo que este trabalho de Marcelo Antunez não consegue reproduzir.

Direção
Este é o quarto longa-metragem de Marcelo Antunez, depois de "Qualquer gato vira-lata 2", "Até que a sorte nos separe 3" e "Um suburbano sortudo", filmes dedicados a uma ideia banal de humor e entretenimento.

Cotação: ruim

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