Filme sobre Elis Regina peca pela superficialidade

Andreia Horta tem bons momentos em cena

FacebookFacebook - Foto: Loic Venance / AFP

Em 31 de março de 1964, Elis Regina chegou ao Rio de Janeiro para ficar de vez, mas foi surpreendida pelo cenário caótico do regime militar, aplicado no mesmo dia, que inviabilizou a sua contratação pela gravadora Phillips. O episódio dá abertura à cinebiografia “Elis”, que estreia nesta quinta-feira, pulando vários aspectos essenciais para entender quem era a cantora e o que motivou as decisões que tomou na carreira.

Antes de se mudar para o Rio aos 18 anos de idade, a gaúcha já era uma estrela mirim pelo circuito de rádios de Porto Alegre e já havia gravado um disco à la Celly Campello na cidade carioca, pela CBS, em 1961, sem muito sucesso. Em 1964, o contato com a Phillips renovou as esperanças da jovem de cantar música brasileira, mas por conta das dificuldades financeiras só pôde comparecer aos escritórios da marca dois meses depois do combinado.

Além de ignorar esse início de carreira, fundamental para a construção da cantora, o filme esquece praticamente todas, e não foram poucas, negativas que a cantora ouviu, fazendo a trajetória difícil parecer até fácil. A partir da recusa na sua chegada, o longa-metragem dirigido por Hugo Prata, que também assina o roteiro ao lado de Vera Egito e Luiz Bolognesi, começa a elencar uma sequência de sucessos.

As apresentações disputadas no Beco das Garrafas, o interesse de São Paulo, a vitória no Festival da Canção e a apoteose com o programa “O Fino da Bossa”, ao lado de Jair Rodrigues. Todos esses acontecimentos surgem sem dar dimensão ao espectador dos esforços que sedimentaram tais conquistas.

A ausência desses momentos não deixa transparecer a insegurança que justificava parte da personalidade intensa e paradoxal da gaúcha, também conhecida pelo espírito competitivo e vaidoso, que alimentou várias intrigas de bastidores com outros artistas, como a rivalidade com Nana Caymmi, Vanuza, Alaíde Costa e a mais conhecida com Nara Leão.

Todos esses aspectos mais obscuros da personalidade da cantora foram suprimidos do filme, apresentando somente a face mais óbvia de Elis, que ganha interpretação irregular de Andreia Horta. Os melhores momentos da atriz são quando ela não tenta reproduzir exageradamente os trejeitos da cantora e traz à tona uma atuação mais espontânea. Os momentos de maior dramaticidade se referem ao seu relacionamento com os personagens masculinos, como os ex-maridos Ronaldo Bôscoli e César Camargo Mariano.

Para tentar mostrar a dominância de Elis, o diretor usou como estratégia privilegiar figuras do sexo oposto em detrimento de outras mulheres centrais na vida da cantora, como a própria mãe, que sequer é citada. O resultado não é dos melhores, pois, à exceção da relação com o pai, o filme passa o contrário: uma Elis domável.

Até a cena em que é chamada para prestar esclarecimentos à polícia, o que teve por consequência a polêmica participação na cerimônia de abertura das Olímpiadas Militares, a cinebiografia também não dá indícios do engajamento da cantora, dona de uma consciência política que determinava, inclusive, sua postura profissional.

O filme peca por explorar uma das personagens mais complexas da música brasileira de forma superficial, porque privilegia os acontecimentos sem adentrar na personalidade. Mas é um bom registro do panorama musical da época, quando o Brasil ainda aprendia a assimilar as informações que surgiam com a Bossa Nova, Rock e Tropicália até chegar à MPB.

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