Filme 'The Post' traz o jornalismo sob olhar cativante

Produção, que tem com duas indicações ao Oscar, revela a apuração do envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã

Tom Hanks e Meryl Streep - na categoria melhor atriz - protagonizam a tramaTom Hanks e Meryl Streep - na categoria melhor atriz - protagonizam a trama - Foto: Universal Pictures / Divulgação

 Há um grau de envolvimento nos bons filmes sobre jornalismo que parece ser próximo à excitação do gênero policial: a pesquisa, a apuração, a tensão gradual sobre a natureza do crime e do castigo. Homens e mulheres que, por persistência ou teimosia, descobrem grandes falcatruas e, através da ferramenta da comunicação, reescrevem a história. Talvez o exemplo perfeito seja "Todos os homens do presidente" (1976), clássico dirigido por Alan J. Pakula sobre o escândalo Watergate que acabou com a renúncia do presidente Richard Nixon.

Estreia, nesta quinta-feira (25), "The Post: a guerra secreta", novo filme de Steven Spielberg, que recebeu duas indicações ao Oscar: melhor filme e melhor atriz (Meryl Streep). A ligação com o longa-metragem de Pakula, além da cativante observação sobre o cotidiano do jornalismo, os bastidores do processo de apuração de uma história que mudou os rumos de um país, está no ambiente e nos personagens: foi o Washington Post que divulgou o Watergate e o editor do jornal é o mesmo nos dois filmes, Ben Bradlee (interpretado por Tom Hanks). Ele é responsável por chefiar o jornal de Kay Graham (Streep), que herdou a empresa de comunicação do pai.

O filme descreve a história verdadeira dos jornalistas do Post, que enfrentaram o presidente Nixon pela chance de publicar arquivos confidenciais do Pentágono sobre o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Esses textos vazaram porque dentro do governo existiam pessoas insatisfeitas com as mentiras de diferentes presidentes, que legitimavam o conflito e enviavam novas tropas, mesmo que a derrota estivesse clara. Daniel (Matthew Rhys) fez cópias desses documentos e enviou para diferentes jornais, na expectativa de que a divulgação causasse revolta na população.

A base do filme é a redação do Post, espaço bagunçado com máquinas de escrever, telefones, pilhas de papéis, evidências de um mundo analógico. Há uma grande quantidade de pequenas e boas piadas sobre esses bastidores, em geral feitas por Bradlee (Tom Hanks carregando no tom canastrão para dar vida a um jornalista experiente). É especialmente fascinante a representação desses bastidores, talvez os melhores momentos do filme. Destaque também para Bob Odenkirk (que interpreta Ben Bagdikian) e Carrie Coon (a personagem Meg Greenfield).

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Spielberg parece também interessado na peculiar posição ocupada por Kay Graham: seu pai era o dono do jornal e, quando morreu, repassou o cargo para o marido de Kay. Quando este faleceu, ela passou a desempenhar um trabalho em geral exercido por algum homem engravatado. As primeiras cenas mostram como a voz de Kay não é ouvida em uma sala com uma grande quantidade de homens poderosos, mesmo ela tendo todas as informações e sendo plenamente capaz de se impor.

É interessante notar como a mídia pode mobilizar a opinião pública através de fatos, e "The Post" consegue transformar jornalismo em ótimo cinema, como "A montanha dos sete abutres" (1951) e "O Jornal" (1994). A impressão é de uma história real importante e bem contada, com o ritmo envolvente de um romance policial que prende a cada cena, mas que parece faltar certo polimento dramático para ser algo maior do que uma aula de jornalismo e história.

Cotação: bom
 

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