Francisco Brennand inaugura nova exposição nesta quarta-feira em Boa Viagem

Telas homenageiam o pintor romancista alemão do século 18, Caspar David Friedrich, que encanta pelas paisagens enevoadas

De névoaDe névoa - Foto: Leo Motta

 

No longo corredor do galpão da Oficina Brennand, na Várzea, Francisco caminha, calmo e altivo, amparado por sua bengala. A figura humana quase tão mitológica quanto as obras que cria desperta a curiosidade dos visitantes, que interpelam o artista pedindo fotografias. Um belo sorriso desponta por entre a barba branca e farta, e ele prontamente atende às solicitações cumprimentando a todos. Uma porta se abre para o seu ateliê, um pequeno espaço repleto de livros, quadros e fotografias, onde o artista recebe a Folha de Pernambuco para uma conversa que parece imune ao tempo.

Aos 89 anos, Francisco Brennand é um artista em plena atividade. Trabalha diariamente no ambiente de atmosfera surrealista da oficina que leva seu nome. Apesar de a cerâmica estar por toda parte e de ser a matéria-prima que o artista mais admira, a idade avançada dificulta seu manuseio. Limitação aceita sem rancor, afinal, existem outras paixões sobre as quais se debruçar: as telas, como se voltasse às origens. A calça suja de tinta na coxa direita - onde limpa o pincel - é testemunha do afinco diário de Brennand, que estudou primeiro a pintura, e foi a ela que deu a maior parte de seus dias de 2016, produzindo os 20 quadros para a mostra “As Névoas de Caspar”, inaugurada nesta quarta-feira (23), às 19h, no Espaço Brennand Recife, no Shopping da Decoração, no Pina.

As telas homenageiam o pintor romancista alemão do século 18, Caspar David Friedrich, que encanta pelas paisagens enevoadas. “Não era comum pintar paisagens. Mas quando eram pintadas, tinham um significado religioso, com montanhas e planícies. O interessante desses artistas, chamados de ‘Nazarenos’, era que eles não completavam um quadro olhando diretamente para a natureza. Fechavam-se no ateliê, deixando entrar apenas a luz natural, mas sem avistar o exterior, e idealizavam”, relata Brennand. Suas névoas vieram da paisagem de Triunfo, onde possui uma casa, comprada em 1968, por ele e a então esposa, a poetisa Déborah Brennand, já falecida. Mas foi em Camocim de São Félix que ele produziu os trabalhos desta exposição.

“Escolhi Caspar porque sempre tive afinidade pela sua pintura, cuja névoa acentua o mistério”.

Outra característica que chama atenção é a presença de figuras humanas de costas para o espectador. “Fiz alguns auto-retratos meus de costas ao longo da vida. É como se estivesse em um auto-exílio, caminhando em um retorno sem que consiga voltar ao meu local de origem. Nosso corpo é testemunho de toda a nossa importância, um desenho perfeito criado para cumprir uma função”, explica. Em um momento atual de tanto exibicionismo, observar o indivíduo por outro ângulo pode revelar muito mais sobre ele.

“Olhamos demais um para o outro. Antigamente não se olhava para as pessoas impunemente. Fosse você a encarar um esgrimista, ele lançaria mão de sua espada e lhe desafiaria para um duelo. Todos querem entrar na intimidade do outro para revelar escândalos”, indigna-se o artista.

Memórias

Caspar é um dos personagens mencionados em um diário que Brennand vem escrevendo há mais de cinco décadas e será lançado no dia 3 de dezembro. Para o artista, literatura e arte estão intimamente ligadas. “Admiro centenas de pintores que escrevem, como o francês Eugène Fromentin, discípulo de (Eugène) Delacroix, e que tinha um diário cujo conteúdo leio desde jovem. Fromentin escreveu um romance chamado ‘Dominique’ (1863), um dos mais belos da literatura universal”, derrete-se.

Em “O Nome do Livro”, três volumes revelarão mais de 50 anos de fatos e pensamentos. Haverá um quarto volume, mais folhetinesco, “O Nome do Outro”, em que o artista dá vazão à sua imaginação ficcional em palavras. “Conto a história de Nonato, que quer dizer não nascido. Trata-se de meu alter ego, que entra em conflito comigo e me contradiz. Quando ele vê uma notícia no jornal sobre o meu falecimento, faz um retrospecto da relação comigo”, descreve o artista-escritor.

E eterno ceramista. “A vida é cheia de acontecimentos que parecem casuais, mas tudo é predeterminado”, filosofa para logo explicar como o que lhe parecia, na juventude, uma arte menor, depois se transformou nesse poderoso elemento de expressão do trabalho inconfundível do pernambucano. “Estava estudando na França quando Cícero Dias me convidou a ver os quadros de Picasso. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com as cerâmicas, extraordinário mundo explorado por artistas como Matisse e Gauguin”.

Mas foi uma escultura de Miró, cuja textura se assemelhava à matéria vulcânica, que intrigou o artista. Somente 20 anos depois ele descobriu que o espanhol trabalhava com altas temperaturas, de 1.400ºC, e reproduziu o efeito na sua oficina. Um resultado que reflete o poder da natureza representado pelo fogo. “Quando a peça entra no forno, se divorcia de mim, e ao ficar pronta, o resultado é genial, não por minha interferência, mas por causa do poder do fogo. O que falta aos meus quadros é passar pelo fogo para que se conciliem com a mãe natureza”, comenta. Ano que vem, a Oficina Brennand completa um século de existência.

 

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