Francisco Brennand: memórias para se deleitar

Lançamento dos três volumes de “Diário de Francisco Brennand” será hoje, das 16h às 19h, para convidados, na Oficina do artista pernambucano, na Várzea

Prédio do Ministério Público de Pernambuco (MPPE)Prédio do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) - Foto: Reprodução/MPPE

 

O que deve conter um diário pessoal? O do pintor, escultor e ceramista Francisco Brennand, escrito ao longo de 67 anos, a partir de 1949, possui detalhes que muitas vezes o fizeram se perguntar se valiam a pena ser escritos. Quem já escreveu um diário, com o passar dos anos, quando retorna àquelas memórias, a princípio banais, acaba enxergando a importância em recordar uma época da vida com tanta nitidez e riqueza de detalhes. É claro que, aos olhos do leitor, desvendar as memórias de um anônimo - ainda que não importe a procedência dos textos quando são bem escritos - não é o mesmo que fazê-lo com as de um grande artista, também conhecido pela erudição, dada a sua paixão pela leitura desde criança. Ainda assim, ele acredita que “as palavras são poucas para entender o segredo do universo”.
Em quatro volumes e duas mil páginas do “Diário de Francisco Brennand”, digamos que ao menos será possível entender e apreciar com deleite um pouco do mítico pequeno-grande universo do artista, que viajou física e mentalmente pelo mundo. Nesses livros ele revela sua verdade. Ao menos a que o ser humano conhece como tal. “Mas o que é a verdade?”, pergunta. A edição de luxo, que custa R$ 100, será lançada neste sábado (3), das 16h às 19h, para convidados, na Oficina Brennand, na Várzea, e é uma publicação da editora Inquietude, de sua sobrinha-neta, Marianna, com patrocínio do Grupo Cornélio Brennand através da Lei Federal de Incentivo à Cultura e apoio da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).
Em tom de narrativa cronológica, a história começa no Rio de Janeiro, dias antes do embarque de navio a Paris para uma viagem prevista para durar dez anos. O tempo não importa quando olhar o céu alto em meio ao oceano encantam o então jovem Brennand.

Mas aquele período era de uma tensa Guerra Fria que se iniciava. Parece oportuna, portanto, a leitura de cabeceira escolhida por Brennand para a viagem: “Guerra e Paz”, de Tolstói. Nesse volume do escritor russo ele se deteve por semanas, e descreve trechos como se houvesse entrado no roteiro de um filme, parando muitas vezes para fazer suas próprias reflexões. “A história da humanidade é cambaleante. Não há sequer um momento de paz. Após a segunda grande guerra não ocorreram conflitos na Europa.

Mas e a África, Ásia e América do Sul?”, ressaltou o artista em conversa recente com a Folha de Pernambuco. Há, de fato, algumas indagações nessa obra. “Meu diário é uma coletânea de fatos e pensamentos. São perguntas sem respostas. Não sou filósofo”, pontua.
Em Paris, a arte e os artistas que já admirava puderam ser conhecidos de perto e apresentados pelo amigo e também artista pernambucano Cícero Dias. Durante a estadia de Brennand e Deborah (então sua esposa), a pintura era o grande território a ser explorado ansiosamente. O francês Balthus é uma influência, assim como Paul Gauguin.

No entanto, foi na capital francesa que o até então pintor descobriu a nobreza da cerâmica ao se deparar com esculturas feita por Picasso e pelo próprio Gauguin. Foi assim que resolveu restaurar a Propriedade Santos Cosme e Damião, como é conhecida a antiga fábrica fundada pelo seu pai, um industrial de origem inglesa, e hoje a Oficina Brennand.
Recentemente, o artista retomou a pintura, por não mais poder lidar com a cerâmica, que o deixam cansado em demasia. “(...) na pintura continuo a descobrir também elementos da escultura de algum modo. Debaixo da cor, há volume (...) Todas essas controvérsias não me atingem, porque os meus propósitos são diversos. Talvez mais ambiciosos, talvez até não procurando atingir nenhuma finalidade. Já dizia Nietzsche: ‘Toda finalidade é uma servidão’ (...)”.

 

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