Galeria Ranulpho celebra trajetória com exposição de Vicente do Rego Monteiro

Espaço artístico no Bairro do Recife, Galeria Ranulpho completa cinco décadas de atividades com mostra de pinturas do modernista pernambucano. Visitação será a partir de quarta-feira (23)

Tela de Vicente do Rego MonteiroTela de Vicente do Rego Monteiro - Foto: Divulgação

"Quando a mim alguém pergunta tua profissão, não digo nunca que és pintor ou professor (palavras pobres que nada dizem de tais surpresas); respondo sempre: - É inventor, trabalha ao ar livre de régua em punho, janela aberta sobre a manhã".

O trecho emblemático do poema de João Cabral de Melo Neto está exposto próximo aos quadros de Vicente do Rego Monteiro, a quem homenageiam, e a quatro painéis que contam a trajetória da Galeria Ranulpho, uma das pioneiras no Nordeste, e que terá vernissage para convidados nesta terça-feira (22) e abre ao público no dia seguinte.

Vicente e Carlos Ranulpho têm uma bonita história juntos, e não foi por acaso que o marchand escolheu realizar uma exposição do pintor, no momento em que comemora meio século de atividades.

São apenas seis telas, que representam uma chance única de ver, reunidos, trabalhos daquele que é considerado um dos artistas mais importantes do Brasil. "Minha ligação com Vicente vem de 1968, ano em que comecei a galeria. Estava dando meus primeiros passos como marchand e Vicente estava passando uma temporada no Recife, a convite da Fundação Joaquim Nabuco. Fiquei curioso e fui procurá-lo. Botei um cartão embaixo da porta do ateliê dele, lá em Boa Viagem, no edifício Hollyday. Dias depois, para minha surpresa, ele me procurou", relembra Ranulpho.

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Ao ouvir que o marchand queria organizar uma exposição com suas obras, o artista refutou a ideia. "Vicente me disse, 'não vou perder tempo com o Recife. Eu pinto mulheres nuas e meninos de bilola de fora. Ninguém vai querer comprar meus quadros'", ri.

Ele conseguiu convencer Vicente a pintar vinte telas, e realizou a proeza de vender todas antes mesmo da exposição abrir. "Saíram até os desenhos, que ainda hoje são um suporte mais difícil de vender", relata. A ligação com o pintor foi além do trato comercial e ele passou a frequentar a casa do marchand e de sua esposa, Maria Dulce, que fazia sarapatel e doces especiais para agradar Vicente, que mesmo após ter vivido vários anos na França, e talvez por isso mesmo, era um entusiasta do tempero local.

Vicente, ao lado de Maria Dulce e do esposo, Ranulpho

Vicente, ao lado de Maria Dulce e do esposo, Ranulpho - Crédito: Reprodução

Ranulpho realizou duas exposições individuais de Vicente e esteve em contato com o amigo até junho de 1970, quando ele faleceu. "Eu dizia, 'Vicente, você não tem idade para fazer tanto esforço físico'. Ele tinha tido um enfarte anterior, mas era teimoso, dizia que era um artesão. Passou a noite fazendo uma caixa para transportar quadros para uma exposição que ia fazer no Rio de Janeiro. Eu combinei que ia passar lá para vê-lo, antes de embarcar. Quando cheguei, de manhã, já estava morto", conta, emocionado.

Aí, começou o relacionamento de Ranulpho com a família do artista. Até hoje, ele é procurador dos filhos de Vicente, que inclusive cederam três das telas para a exposição. A admiração pela obra de Vicente levou o marchand a produzir um livro sobre o artista, escrito pelo crítico de arte Jacob Klintowitz e lançado em 2012. 

   Memória

Carlos Ranulpho foi joalheiro por quase duas décadas, e mudou de ramo de atividade a partir de 1968, quando realizou uma exposição mesclando joias e obras de arte produzidas pelo pintor paulista Aldemir Martins. "Foi um sucesso estrondoso. Veio prefeito, governador, ganhei capa de jornal. Fiquei pensando com meus botões, 'há vinte anos trabalho como joalheiro e nunca ninguém deu uma notinha sequer sobre mim'. Então, passei a olhar esse setor com mais atenção e aos poucos mudei de atividade", confessa.

Na época, não existiam galerias profissionais no Recife. A de Ranulpho começou na rua da Aurora, passou para Boa Viagem e chegou a ter uma filial em São Paulo, no bairro dos Jardins. A atual sede, no Bairro do Recife, foi inaugurada em 2001. "Não é nada fácil permanecer nesse ramo, mas resistimos com esforço, trabalho e amor pelo que fazemos", diz Ranulpho.

Prestes a completar 90 anos, ele tornou-se referência em arte moderna pernambucana e continua frequentando diariamente o espaço. Nesta terça-feira (22), a festa será restrita a convidados, mas a exposição ficará aberta ao público até o dia 15 de junho.

Serviço:
Exposição "Vicente em seis atos - Uma celebração dos 50 anos da Galeria Ranulpho"
Galeria Ranulpho (Rua do Bom Jesus, 125, Bairro do Recife)
Vernissage para convidados nesta terça-feira (22), a partir das 19h. Visitação até 15 de junho
Informações: (81) 3225-0068

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